Evans Osei Wusu, de 39 anos, fazia parte de grupo que estava retido no aeroporto, em Guarulhos, à espera de refúgio
William Oliveira Publicado em 20/05/2025, às 10h03
A certidão de óbito de Evans Osei Wusu, imigrante ganense de 39 anos, aponta como causa da morte uma infecção generalizada decorrente de uma infecção urinária não tratada. Ele faleceu no Hospital Geral de Guarulhos, dois dias após ser internado. O caso causou comoção entre ativistas de direitos humanos e expôs possíveis falhas no sistema de acolhimento a migrantes no Brasil.
Em resposta à tragédia, a Defensoria Pública da União (DPU) ajuizou uma ação civil pública contra a União e a companhia aérea Latam, pedindo indenizações que totalizam R$ 10 milhões. A ação não se limita à morte de Evans, mas denuncia também o tratamento desumano a que são submetidos imigrantes retidos na área restrita do Aeroporto Internacional de São Paulo.
De acordo com informações do g1, a família de Evans afirmou que ele pediu ajuda médica diversas vezes ao longo de agosto de 2023, sem ser atendido, enquanto aguardava o processamento de seu pedido de refúgio no país.
O defensor regional de Direitos Humanos em São Paulo, Murillo Ribeiro Martins, declarou em entrevista que a ação busca responsabilizar tanto o Estado quanto a empresa aérea pelos eventos que levaram à morte de Evans, e pelas condições precárias enfrentadas por outros migrantes.
“A petição, que também é assinada pelo Grupos de Trabalho Migração, Apatridia e Refúgio, através de Ed William Fuloni, e Políticas Etnorraciais, por Natalia Von Rondow, aborda, além dos fatos relacionados à morte de Evans, toda a problemática prévia ao que aconteceu com ele e a própria questão do racismo estrutural que enxergamos estar presente neste caso”, afirmou Martins.
Reparação e responsabilização
A DPU solicita reparação por danos morais individuais e coletivos, além de danos materiais. Entre os pedidos, estão:
A ação argumenta que União e Latam devem ser responsabilizadas solidariamente por violação dos direitos humanos e omissão no dever de assistência.
Segundo Martins, o caso revela falhas sistêmicas na proteção a migrantes em situação de vulnerabilidade, desde a chegada ao Brasil até o falecimento de Evans. Ele criticou a ausência de assistência por parte da União e a negligência da Latam, mesmo após o imigrante ter sido transferido ao hospital.
A Latam afirmou, por meio de nota, que ainda não foi formalmente notificada e, por isso, não comentará o caso. Já o Ministério da Justiça declarou que a Secretaria Nacional de Justiça (Senajus) só teve conhecimento da situação de Evans após sua morte.
Enterro sem consentimento e investigações em curso
A família de Evans soube de sua morte pela imprensa e denunciou que não foi informada oficialmente pelas autoridades. Eles também afirmam que o imigrante foi enterrado sem o consentimento dos parentes, o que gerou indignação e aprofundou o sentimento de abandono.
A Polícia Civil e o Ministério Público Federal abriram investigações. Relatos já colhidos apontam para uma série de negligências, desde a chegada de Evans ao país até sua morte precoce.
O caso de Evans escancara as deficiências do sistema de acolhimento a migrantes no Brasil, especialmente para aqueles que buscam refúgio em meio à vulnerabilidade. Sua morte acende o alerta sobre a urgência de reformas na assistência humanitária e nos protocolos de atendimento a estrangeiros em solo brasileiro.