Com inscrições abertas, o projeto já conta com mais de 2 mil participantes que registram suas viagens para acumular créditos no transporte público
Marina Milani Publicado em 27/07/2025, às 11h47
A lei municipal 16.547/2016, que permite a remuneração de ciclistas em São Paulo, permanece sem regulamentação desde sua criação. Contudo, um novo projeto-piloto surge como uma tentativa de ativar essa legislação, oferecendo créditos no Bilhete Único para aqueles que utilizam bicicletas em seus deslocamentos diários.
O estudo, realizado por pesquisadores do Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo (IME-USP) em parceria com o FGV Cidades, tem como objetivo investigar se incentivos financeiros são eficazes para alterar os hábitos de mobilidade dos cidadãos paulistanos.
As inscrições para o projeto foram abertas durante o mês de junho e os candidatos precisaram completar um curso sobre segurança no trânsito. Segundo Fabio Kon, coordenador da pesquisa, quase 3 mil pessoas se inscreveram, das quais mais de 2 mil atenderam a todos os requisitos e já estão utilizando um aplicativo desenvolvido especificamente para a iniciativa.
"A partir de agosto, começaremos a efetuar a remuneração real, com aproximadamente mil participantes", afirmou Kon. O projeto inicialmente limita os ciclistas a registrar até duas viagens diárias para acumular créditos, que devem ser validados nas máquinas de recarga do sistema de transporte.
Uma das participantes do projeto é Gabriela Giamoniano, uma professora de ioga de 44 anos. Ela soube da iniciativa através de um grupo de mulheres ciclistas no WhatsApp e utiliza a bicicleta como meio de transporte cotidiano há mais de cinco anos. Giamoniano expressou que a experiência de testar o aplicativo foi positiva e prática.
"Eu registro os endereços que frequento diariamente e o app calcula automaticamente o valor que recebo conforme a distância percorrida", disse ela.
Além da remuneração, Giamoniano acredita que o aplicativo poderá auxiliar na coleta de dados sobre o uso das ciclovias na cidade. "Meu trajeto é de quase 11 km, mas não há ciclovias disponíveis em toda a extensão. Acredito que mais pessoas poderão optar pela bicicleta e isso ajudará a aumentar a conscientização dos motoristas em relação aos ciclistas", ponderou.
Os dados coletados durante o projeto servirão para embasar a regulamentação da lei pela Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana e Transporte. Os pesquisadores buscaram financiamento por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) para viabilizar o teste.
Kon explicou que nos últimos dois anos foi desenvolvido um software para cadastrar os usuários e um aplicativo capaz de rastrear as viagens feitas pelas bicicletas. A expectativa é que ao longo do projeto sejam registrados cerca de 100 mil trajetos, permitindo uma análise detalhada sobre o fluxo ciclístico na cidade.
Essas informações poderão ser utilizadas para aprimorar o planejamento urbano, identificando áreas com alta circulação de ciclistas onde a infraestrutura ainda é insuficiente. "Vamos determinar quais regiões demandam atenção prioritária e avaliar se a remuneração proposta está adequada", completou Kon.
Fabio Kon enfatiza que o objetivo da iniciativa não é substituir o transporte público pela bicicleta, mas sim promover uma convivência harmoniosa entre diferentes meios de locomoção e conscientizar a população sobre os benefícios do uso da bicicleta.
"Ela é uma alternativa eficiente em termos energéticos; ocupa menos espaço nas vias e contribui para reduzir congestionamentos", finalizou.