INVESTIGAÇÃO

Caso Gisele: reconstituição derruba versão de coronel e reforça suspeita de feminicídio

A Polícia Militar apontou inconsistências na versão do tenente-coronel Geraldo Neto após perícia indicar que a vítima não conseguiria acessar a arma do disparo

Investigação aponta histórico de violência e ciúmes no relacionamento - Imagem: Reprodução / Arquivo pessoal

William Oliveira Publicado em 19/03/2026, às 07h00

A reconstituição do caso conduzida pela Corregedoria da Polícia Militar concluiu que a soldado PM Gisele Alves Santana não teria condições físicas de alcançar a arma de fogo que, segundo o marido, o tenente-coronel Geraldo Neto, estava guardada sobre um armário no quarto do casal. A conclusão reforça a hipótese de feminicídio investigada pela Polícia Civil.

Gisele foi encontrada no dia 18 de fevereiro caída no chão do apartamento onde morava com o marido, no Centro de São Paulo, com um tiro na cabeça. Ela chegou a ser socorrida, mas não resistiu aos ferimentos e morreu no hospital.

De acordo com laudo do Instituto de Criminalística, uma pessoa com 1,65 metro de altura — como a vítima — alcançaria no máximo 1,73 metro, mesmo se esticando nas pontas dos pés. A arma, no entanto, estava posicionada a cerca de 1,96 metro de altura. O guarda-roupa onde o armamento ficava apoiado mede 2,04 metros. A constatação contraria a versão apresentada pelo oficial, que alegava que a própria vítima teria retirado a arma antes do disparo.

O tenente-coronel foi preso nesta quarta-feira (18), em São José dos Campos (SP), após a Justiça Militar decretar sua prisão preventiva pelos crimes de feminicídio e fraude processual.

Na reprodução simulada dos fatos, o oficial relatou que, na manhã do crime, comunicou à esposa a intenção de se separar. Segundo ele, houve discussão, e Gisele o empurrou para fora do quarto, trancando a porta. Em seguida, afirmou ter ido tomar banho. Cerca de um minuto depois, disse ter ouvido um barulho alto, que inicialmente interpretou como uma porta batendo. Ao sair parcialmente do banheiro, declarou ter visto a esposa caída no chão da sala, com sangramento na cabeça.

As investigações, no entanto, apontam um histórico de violência psicológica no relacionamento. Mensagens extraídas do celular do oficial revelam que Gisele relatava episódios frequentes de humilhação e desrespeito.

“Não dá para entender. Você pediu para eu não ir embora. Eu fico e você continua igual, até pior, com seu tratamento. Falando coisas para me humilhar, para me provocar”, escreveu a policial.

Em outro trecho, ela afirmou: “Se você quer separar, vamos separar. Mas, se você continuar, vai ter que mudar seu comportamento estúpido, ignorante, intolerante e sem escrúpulos. Estou deixando bem claro para você que não vou aguentar muito tempo esse comportamento babaca”.

Gisele também reclamou: “Toda hora jogando piada, me chamando de burra, mandando arrumar um soldado. O que a função tem a ver com relacionamentos?”

Já em mensagens atribuídas ao tenente-coronel, há declarações de cunho machista: “Lugar de mulher é em casa, cuidando do marido. E não na rua, caçando assunto. Rua é lugar de mulher solteira à procura de macho”.

Para a Corregedoria, os diálogos evidenciam “concepção de relacionamento baseada em submissão e hierarquia no âmbito doméstico” e indicam “violência psicológica reiterada, com tentativas de controle e desqualificação da autonomia da vítima”.

A investigação reúne uma série de laudos periciais que reforçam a suspeita de feminicídio. O exame necroscópico apontou marcas de dedos no pescoço da vítima, indicando que ela pode ter sido desacordada antes do disparo. A análise da trajetória do tiro revelou que o disparo foi feito de baixo para cima, com o cano encostado na cabeça.

O exame toxicológico não identificou presença de álcool ou drogas. Já o teste residuográfico não detectou vestígios de pólvora nas mãos da vítima nem nas do oficial. Peritos também consideraram incomum o fato de Gisele ter sido encontrada segurando a arma, o que não costuma ocorrer em casos de suicídio.

Outros elementos levantaram suspeitas, como o intervalo de 29 minutos entre o barulho do disparo ouvido por uma vizinha e o pedido de socorro feito pelo oficial. Ele também afirmou ter tomado banho antes do ocorrido, mas foi encontrado com o corpo seco quando as equipes chegaram ao local.

Exames periciais identificaram ainda vestígios de sangue no box do banheiro e em outros cômodos do apartamento, revelados com o uso de luminol. Após a perícia, o imóvel foi limpo por policiais militares, o que também passou a ser investigado.

A Polícia Civil indiciou o tenente-coronel por feminicídio e fraude processual, apontando possível alteração da cena do crime. A motivação, segundo os investigadores, estaria relacionada a ciúmes e comportamento possessivo.

O caso deve ser analisado pela Justiça comum, já que crimes dolosos contra a vida não são considerados militares. Se condenado, o oficial poderá ser julgado pelo Tribunal do Júri. O Ministério Público também solicitou a fixação de indenização mínima de R$ 100 mil aos familiares da vítima.

As investigações seguem em andamento.

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