Talheres, luminárias e até canecas de coquetéis somem das mesas; Abrasel explica como o fenômeno corrói as margens já apertadas dos estabelecimentos
Letícia Sales Publicado em 03/07/2026, às 13h06
Uma denúncia feita pela chef Renata Vanzetto em vídeos publicados nas redes sociais em maio deste ano expôs uma prática que, segundo profissionais do setor gastronômico, é mais comum do que se imagina: o furto de itens em restaurantes por parte dos próprios clientes.
Nas publicações, a chef, que comanda 11 estabelecimentos em São Paulo, relatou que já perdeu talheres, pratos, livros, cinzeiros, porta-contas e até luminárias de mesa levados por frequentadores — mesmo em casas de alto padrão.
"Vocês sabiam que quanto mais restaurante eu tenho, quanto mais clientes eu atendo, mais roubo a gente tem? Mais talher some, mais prato some [...] As pessoas roubam. É assustador, é triste. Pessoas que vão em restaurante caro e tem condições, e não estão furtando por questões de sobrevivência, que chegam num carrão, que pedem um vinho caro e enfia quatro talheres de prata na bolsa", desabafou a chef.
Renata também citou casos envolvendo objetos de maior valor: "A luminária da mesa, simplesmente enfia na bolsa. Uma luminária de R$ 1.500. Não importa quanto custa, não é dela [da pessoa], é um furto. A pessoa está furtando. Vocês não têm noção da quantidade de vídeos que a gente tem de clientes enfiando [objetos] na bolsa."
Setor confirma: problema é recorrente e crescente
A Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) afirma não dispor de uma estatística oficial sobre esse tipo de ocorrência, mas reconhece que a situação é frequente entre seus associados. "Ouvindo nossos associados e chefs, percebemos que esta é uma dor diária e crescente", afirmou Gabriel Pinheiro, líder executivo da Abrasel São Paulo.
O fenômeno do "furto fofo"
Segundo Pinheiro, as redes sociais popularizaram recentemente o termo "furto fofo" para descrever quando um cliente leva para casa pequenos itens de decoração ou utensílios do restaurante — como a caneca de cobre usada em um Moscow Mule, um ramequim de cerâmica, um saleiro ou um talher de design diferenciado.
"Muitas vezes, isso não nasce de uma má intenção, mas do desejo do cliente de estender a experiência. Ele acha a peça linda, a encara como uma 'lembrancinha' inofensiva daquela noite e a coloca na bolsa. O problema é que precisamos traduzir essa brincadeira para a realidade do balanço financeiro", explicou o executivo.
Prejuízo pode anular o lucro de uma mesa inteira
De acordo com Pinheiro, as margens de lucro no setor de bares e restaurantes são historicamente estreitas, muitas vezes na casa de um único dígito percentual. Isso significa que, quando um item de R$ 40 ou R$ 60 desaparece de uma mesa, o custo de reposição pode consumir integralmente o lucro obtido com todo o atendimento daquela mesa.
"Ou seja, o empresário vendeu, atendeu bem, mas fechou a conta no prejuízo", enfatizou Pinheiro.
O executivo também associa o crescimento do problema à cultura das redes sociais, onde exibir o item "levado" do restaurante se tornou uma forma de validação social. "Com a cultura das redes sociais, onde exibir o item levado do restaurante virou uma espécie de tendência ou validação de 'estive naquele lugar da moda', o volume de reposição disparou, especialmente nas casas focadas em coquetelaria e alta gastronomia."