Recentemente, um adolescente foi gravemente ferido por um grupo neonazista em Kostroma
William Oliveira Publicado em 20/06/2025, às 13h22
No final de 2024, a cidade russa de Kostroma foi palco de um episódio alarmante. Um adolescente sofreu uma grave lesão facial ao ser atingido por uma pistola de sinalização, disparada por membros de um grupo neonazista local, conhecido como Made With Hate. O ataque ocorreu quando o jovem retornava para casa após assistir a um documentário sobre Ivan Khutorskoy, ativista antifascista assassinado por neonazistas em Moscou.
Esse ato de violência lança luz sobre uma tendência inquietante que se intensifica na Rússia contemporânea. Enquanto o Kremlin justifica a invasão da Ucrânia sob o argumento de combater o “nazismo”, o extremismo de direita cresce de forma preocupante dentro das fronteiras nacionais.
Segundo o Sova Centre — organização sediada em Moscou especializada no monitoramento de crimes de ódio — os ataques perpetrados por grupos de extrema direita mais que dobraram em 2023 em comparação ao ano anterior. Trata-se de uma reversão drástica após mais de uma década de declínio na atividade desses grupos. Um dado alarmante: a maioria dos envolvidos são adolescentes.
A nova onda de violência remete aos anos 1990 e início dos anos 2000, período de instabilidade pós-soviética em que centenas de ataques motivados por ódio eram registrados anualmente. Se antes a literatura impressa extremista fomentava esse cenário, hoje, plataformas digitais como Telegram e TikTok têm papel central na propagação da ideologia radical entre os jovens russos.
Em Kostroma — cidade de aproximadamente 264 mil habitantes, banhada pelo rio Volga — um grupo de adolescentes criou, no início de 2024, um canal no Telegram com a intenção inicial de organizar atividades esportivas. Em pouco tempo, o grupo evoluiu para o vandalismo, com pichações de suásticas e outros símbolos neonazistas espalhados pela cidade. Segundo Anton, um ex-membro que conversou com a BBC sob anonimato, a gangue se autodenominava Made With Hate.
Durante o verão passado, os encontros virtuais deram lugar a agressões físicas premeditadas. “Eles se reuniam para atacar alguém”, relatou Anton, que decidiu abandonar o grupo ao perceber que suas crenças não estavam alinhadas com os atos violentos. O alvo dos ataques variava: usuários de drogas, alcoólatras e, sobretudo, jovens envolvidos com movimentos progressistas. Os atos eram registrados em vídeo e compartilhados no canal do Telegram, que atraía seguidores não só em Kostroma, mas também em outras cidades da Rússia, e até na Ucrânia e Polônia.
A vítima mais emblemática dessa escalada de violência — identificada com o nome fictício de Yaroslav — foi abordada por nove indivíduos à saída do cinema. Questionado sobre suas posições políticas, foi alvejado no rosto por uma pistola de sinalização. Apesar do atendimento médico imediato, perdeu a visão de um dos olhos e precisou interromper os estudos.
Duas semanas após o ataque, um jovem de 17 anos foi detido sob acusação de vandalismo e lesão corporal grave. Anton revelou que o suspeito havia ingressado recentemente no Made With Hate e era ativo nas ações do grupo.
Vera Alperovitch, pesquisadora do Sova Centre, afirma que novas células neonazistas tentam reviver tradições violentas dos anos 2000. Os métodos — perseguições coordenadas e ataques a minorias — são similares, mas a motivação atual parece menos ideológica e mais voltada à busca por notoriedade digital.
Especialistas apontam ainda que a retórica xenofóbica promovida pelas autoridades russas contribui para alimentar o ódio interno. Paul Jackson, professor da Universidade de Northampton, no Reino Unido, destaca que plataformas como o Telegram, com baixa moderação, oferecem terreno fértil à extrema direita global. Jovens sem senso de pertencimento social tornam-se presas fáceis de discursos radicais.
No cenário atual em Kostroma, Anton relata que o número de integrantes do movimento neonazista tem aumentado consideravelmente. Para muitos adolescentes, participar dessas gangues tornou-se símbolo de status e modernidade. Em abril de 2025, Anton se alistou para lutar na guerra na Ucrânia, sem entender ao certo por que o fazia.