Alerta

Propostas do governo Trump para flexibilizar venda de armas preocupam especialistas sobre impacto no tráfico internacional

Mudanças em análise incluem a ampliação das vendas online de armamentos e a revisão de restrições adotadas durante o governo Biden; especialistas avaliam possíveis reflexos para o Brasil

Governo Trump estuda ampliar venda online de armas e acende alerta sobre tráfico para o Brasil - Imagem: Reprodução/REUTERS

Julio Cezar Souza Publicado em 14/07/2026, às 09h13

O governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, analisa uma série de mudanças na regulamentação do comércio de armas que podem facilitar a aquisição de armamentos no país. Entre as propostas está a possibilidade de ampliar as vendas online, permitindo que a verificação de antecedentes criminais seja realizada de forma totalmente digital, sem a necessidade de comparecimento do comprador a uma loja física.

As alterações fazem parte de uma revisão conduzida pelo Departamento de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos (ATF), que apresentou, em abril, 34 propostas para modificar as regras do setor. Segundo a Casa Branca, o objetivo é reforçar o direito constitucional dos cidadãos americanos de possuir e portar armas, previsto na Segunda Emenda da Constituição.

Entre as medidas em discussão também está a revogação de normas implementadas durante o governo de Joe Biden, como a ampliação da exigência de licença para vendedores de armas.

Especialistas veem risco de aumento do tráfico
Pesquisadores ouvidos pela BBC News Brasil afirmam que o afrouxamento das regras pode aumentar o risco de desvio de armamentos para organizações criminosas fora dos Estados Unidos.

John Lindsay-Poland, coordenador do projeto Stop US Arms to Mexico, considera especialmente preocupante a possibilidade de envio de armas pelos Correios, sem contato presencial entre vendedor e comprador.

Segundo ele, o principal problema continua sendo o tamanho e a permissividade do mercado civil de armas norte-americano, o que permite que diversas transações consideradas suspeitas permaneçam dentro da legalidade.

Bruno Langeani, consultor sênior do Instituto Sou da Paz, afirma que ainda não é possível medir o impacto das mudanças sobre o abastecimento de facções brasileiras, mas defende que eventuais sanções a estabelecimentos envolvidos em vendas suspeitas seriam mais eficazes do que a simples classificação de grupos criminosos como organizações terroristas.

Exportações também podem ser facilitadas
Além das alterações no mercado interno, a administração Trump já flexibilizou, em 2025, restrições às exportações legais de armas civis para dezenas de países considerados sensíveis por apresentarem histórico de violações de direitos humanos ou de desvio de armamentos.

Segundo o Departamento de Comércio dos Estados Unidos, a medida busca ampliar oportunidades para a indústria armamentista americana.

A decisão, no entanto, foi criticada por organizações como a Anistia Internacional, que argumenta que parte das armas exportadas legalmente acaba sendo utilizada em crimes ou violações de direitos humanos.

Brasil registra aumento nas apreensões
Dados do Instituto Sou da Paz mostram que o número de fuzis apreendidos no Brasil cresceu significativamente nos últimos anos. Em 2025, foram recolhidas 2.152 unidades, aumento de 167% em relação a 2021.

Em estudo anterior da entidade, que analisou armamentos apreendidos entre 2019 e 2023, os Estados Unidos apareceram como a principal origem identificada entre os fuzis rastreados, seguidos pelo Brasil.

Especialistas, porém, alertam que o crescimento das fábricas clandestinas dentro do país tem alterado esse cenário.

Produção clandestina preocupa autoridades
Para o Ministério da Justiça e Segurança Pública, a fabricação ilegal de armamentos em território nacional tornou-se um dos principais desafios no combate ao crime organizado.

Segundo representantes da Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp), grupos criminosos conseguem produzir réplicas de plataformas conhecidas, como os fuzis AR-15 e AK-47, utilizando equipamentos industriais e softwares de alta precisão.

Embora essas armas clandestinas tenham durabilidade inferior aos modelos originais, autoridades afirmam que elas são plenamente capazes de abastecer confrontos urbanos, além de apresentarem custo de produção menor do que o tráfico internacional.

O governo federal passou a integrar, neste ano, a Rede Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de Armas, Munições, Acessórios e Explosivos (Renarme), iniciativa voltada à coordenação entre União e estados para combater tanto o tráfico internacional quanto a produção clandestina de armamentos no país.

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