Com a escassez de alimentos e a violência crescente, a situação humanitária em Gaza se torna cada vez mais crítica
Gabriela Thier Publicado em 11/07/2025, às 14h41
Nesta terça-feira (11), o Escritório de Direitos Humanos das Nações Unidas (ONU) divulgou um relatório alarmante que contabiliza pelo menos 798 assassinatos ocorridos nas últimas seis semanas em áreas de assistência humanitária em Gaza, operadas pela Gaza Humanitarian Foundation (GHF), uma entidade que recebe apoio dos Estados Unidos e de Israel. Esses centros estão localizados próximos a comboios geridos por outras organizações humanitárias.
De acordo com a GHF, a organização utiliza empresas de segurança e logística privadas dos EUA para transportar suprimentos a Gaza, uma estratégia que, segundo Israel, evita o desvio de ajuda humanitária por grupos militantes como o Hamas. No entanto, o Hamas refuta essa acusação.
Após a morte de centenas de civis palestinos que buscavam ajuda nos centros da GHF, as Nações Unidas classificaram esse modelo de assistência como "inseguro por natureza" e uma violação dos princípios de imparcialidade no auxílio humanitário.
A porta-voz do Escritório de Direitos Humanos da ONU (OHCHR), Ravina Shamdasani, declarou durante uma coletiva em Genebra: "Entre 27 de maio e 7 de julho, registramos 798 mortes, sendo 615 nas proximidades das instalações da GHF e 183 ao longo das rotas dos comboios de ajuda".
A GHF, que começou a distribuir alimentos na região no final de maio após a suspensão de um bloqueio israelense que durou 11 semanas, contestou os dados da ONU, alegando que os números são "falsos e enganosos". Em declarações à Reuters, um porta-voz da GHF afirmou que não houve registros de incidentes fatais em suas instalações e destacou que "os ataques mais letais a locais humanitários estão relacionados aos comboios da ONU".
O OHCHR informou que suas estatísticas são baseadas em múltiplas fontes confiáveis, incluindo hospitais locais, cemitérios, familiares das vítimas e autoridades de saúde palestinas. A maioria dos feridos reportados nas cercanias dos centros de ajuda desde 27 de maio foi causada por disparos.
Shamdasani expressou preocupações sobre os crimes atrozes cometidos contra aqueles que aguardam por suprimentos essenciais: "Estamos alarmados com os crimes que têm ocorrido e com o risco contínuo em áreas onde as pessoas fazem filas para receber alimentos".
As forças israelenses afirmam agir nas proximidades dos centros humanitários para impedir que a assistência chegue às mãos dos militantes.
Nesta mesma data, a GHF anunciou ter distribuído mais de 70 milhões de refeições para palestinos necessitados em Gaza ao longo de cinco semanas. A organização também afirmou que outras entidades humanitárias enfrentaram saques sistemáticos por parte do Hamas ou grupos criminosos. O Escritório da ONU para Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) já havia registrado episódios de violência relacionados ao roubo da ajuda humanitária. Além disso, o Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas revelou que muitos caminhões destinados à entrega de alimentos foram interceptados por "comunidades civis famintas".
Atualmente, Gaza enfrenta uma grave escassez de alimentos e suprimentos básicos após 21 meses da campanha militar israelense, durante os quais grande parte do território foi devastado e a maioria dos seus 2,3 milhões de habitantes se encontra deslocada.