Desaparecimentos

Evento da Cruz Vermelha reúne países e amplia debate sobre pessoas desaparecidas

Delegações de 50 países trocam experiências para aprimorar busca e apoio às famílias

A troca de experiências internacionais enriquece o debate e fortalece a luta por justiça e direitos para familiares de desaparecidos - Imagem: Reprodução/Agência Brasil

Gabriela Nogueira Publicado em 13/11/2025, às 16h13

Genebra recebe nesta semana uma das principais mobilizações globais dedicadas à causa das pessoas desaparecidas. A 4ª Conferência Internacional de Familiares de Pessoas Desaparecidas, promovida pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) e pelas sociedades nacionais da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho, reúne cerca de 900 representantes de 50 países para compartilhar experiências, métodos de busca e caminhos possíveis para fortalecer políticas públicas. Os encontros começaram na última terça-feira (11) e se encerram nesta quinta (13).

O Brasil acompanha o evento com uma delegação de mais de 50 participantes, que se reúne presencialmente na sede do CICV em São Paulo enquanto acompanha a transmissão internacional. São representantes de nove estados e de diferentes associações de familiares, que dedicam os dias de debate a trocar vivências, analisar desafios comuns e construir propostas conjuntas para enfrentar o problema crescente dos desaparecimentos no país.

Fernanda Baldo, Oficial de Proteção do CICV e parte da equipe que organiza a conferência, destaca que o Brasil reúne casos muito distintos — desde desaparecimentos ocorridos no período da ditadura militar até episódios recentes ligados à violência urbana.

“Essas famílias têm se mobilizado anualmente para criar pautas unificadas e manter o diálogo com autoridades. Essa articulação é essencial para fortalecer a busca por respostas”, afirma.

Os grupos também discutem formas de melhorar os mecanismos de busca, criar redes de apoio e atender necessidades que vão desde orientação jurídica até acolhimento emocional. Para Fernanda, o encontro internacional permite que cada núcleo aprenda com realidades muito diferentes e adapte boas práticas ao seu próprio contexto.

O Movimento Nacional de Familiares de Pessoas Desaparecidas, criado no ano passado, já é um reflexo dessa organização crescente. A rede reúne associações espalhadas pelo país e facilita a construção de estratégias conjuntas. Em agosto de 2025, várias entidades se incorporaram oficialmente ao movimento, entre elas Mães da Sé e a Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos — nomes tradicionais na luta por memória, verdade e justiça. “A conferência amadureceu. Antes, o foco era apenas a dor individual das famílias. Hoje, vemos objetivos claros e ações coordenadas”, ressalta Baldo.

Apesar dos avanços, a conferência também evidenciou desafios urgentes no Brasil. Um deles é a dificuldade de integrar as agendas de quem busca desaparecidos da ditadura e de quem enfrenta casos recentes, muitas vezes ligados à violência urbana e conflitos armados. Outro ponto recorrente é a necessidade de consolidar uma Política Nacional de Busca que funcione na prática, com monitoramento contínuo.

As associações também defendem a criação de um Banco Nacional de Amostras Genéticas e melhorias no Cadastro Nacional de Desaparecidos, que ainda enfrenta falhas de integração entre os estados. Para as entidades, essas ferramentas são fundamentais para acelerar a identificação de pessoas e dar mais segurança às investigações.

A articulação entre familiares tem raízes antigas e ficou marcada por momentos emblemáticos, como a descoberta da vala clandestina do cemitério de Perus, em São Paulo. Mas ganhou força a partir de 2015, quando a Cruz Vermelha passou a atuar mais de perto com grupos brasileiros. Hânya Pereira Rego, integrante do Movimento Nacional e parente de um desaparecido desde 1975, acredita que a união entre diferentes frentes é o caminho mais promissor.

“Nossa mobilização tem criado uma voz coletiva para exigir direitos e buscar justiça. Juntos, somos mais fortes”, afirma.

A troca internacional também ampliou horizontes. José Benjamim Gamboa Lizarazo, da Asociación de Familiares de Detenidos-Desaparecidos da Colômbia, compartilhou a experiência do país vizinho, onde famílias enfrentam há décadas os impactos do conflito armado. Ele reforçou a importância de ações contínuas, políticas sólidas e apoio psicológico para quem passa pela incerteza do desaparecimento.

Ao longo do evento, os participantes foram convidados a se envolver mais ativamente em iniciativas locais e a buscar grupos já organizados nas redes sociais ou por meio de entidades que atuam na causa. As atividades públicas da conferência serão registradas nos canais oficiais da Cruz Vermelha, permitindo que a discussão continue mesmo após o encerramento dos debates.

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