Identificado como Itaguyra oculta, fóssil traz novos insights sobre a relação entre silessauros e dinossauros
Gabriela Thier Publicado em 01/06/2025, às 18h00
Uma nova pesquisa, que analisa um fóssil descoberto há décadas em Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul, lança luz sobre a evolução dos dinossauros.
O fóssil em questão, agora identificado como pertencente a uma nova espécie denominada Itaguyra oculta, foi estudado por paleontólogos brasileiros e argentinos. A descrição baseia-se em dois ossos fossilizados, especificamente um ílio e um ísquio, que compõem a cintura pélvica do animal.
Os resultados do estudo foram publicados na revista Scientific Reports, parte da renomada editora Nature. Durante a análise morfológica dos ossos, os pesquisadores determinaram que se tratava de um membro do grupo dos silessauros, pertencente ao clado dos répteis, em vez de um cinodonte, grupo relacionado aos mamíferos.
Os silessaurídeos são classificados como dinossauromorfos, um grupo amplo que inclui os próprios dinossauros e outras linhagens relacionadas. No entanto, existe debate científico sobre se eles devem ser considerados dinossauros ou se ocupam uma posição mais próxima como um grupo-irmão dessas criaturas icônicas.
A pesquisa indica que o fóssil data de cerca de 237 milhões de anos, um intervalo temporal pouco explorado para os silessauros. Essa descoberta sugere que esses animais estiveram presentes continuamente na região da atual América do Sul durante o Triássico.
Baseando-se nas conclusões do estudo, os cientistas defendem que os silessauros não apenas estão intimamente relacionados aos dinossauros, mas são representantes diretos da linhagem dos ornitísquios. O principal autor do estudo, Voltaire Paes Neto, pesquisador do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (MN/UFRJ), afirma: "A descoberta preenche um hiato temporal crítico e apoia a ideia de que os silessauros podem ser os primeiros membros dos ornitísquios".
Se essa hipótese for validada por pesquisas futuras, Itaguyra oculta poderá ser reconhecida como uma das espécies de dinossauros mais antigas conhecidas até hoje.
Alexandre Kellner, diretor do Museu Nacional e coautor do estudo, acrescenta que "toda a diversidade conhecida dos dinossauros é dividida em duas grandes linhagens: saurísquios e ornitísquios. Embora essas classificações existam há mais de um século e meio na ciência, a origem dessas linhagens ainda permanece como um enigma".
Os silessauros englobam animais geralmente pequenos, quadrúpedes e com dietas onívoras ou herbívoras, que viveram no final do Triássico e deixaram vestígios fósseis em várias regiões da antiga Pangeia, incluindo a América do Sul contemporânea.
O paleontólogo Flávio A. Pretto, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e coautor do estudo, enfatiza que "a presença contínua dos silessauros no Brasil ressalta a importância do sul do país como um local fundamental para compreender a origem e a diversificação dos dinossauros".
A nomenclatura da nova espécie é uma homenagem à sua origem: "Itaguyra" é derivada de palavras da língua tupi que significam "pedra" (ita) e "ave" (guyra), enquanto "occulta" refere-se ao fato de que os restos permaneceram ocultos entre outros materiais por décadas.
A pesquisa contou com a colaboração não apenas da UFSM e do Museu Nacional, mas também da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), da Universidade Federal do Pampa (Unimpa) e do Museo Argentino de Ciencias Naturales. O trabalho teve apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) e do projeto INCT-Paleovert.