Relatos de soldados israelenses indicam disparos indiscriminados contra palestinos em busca de alimentos
Gabriela Thier Publicado em 27/06/2025, às 19h31
A Defesa Civil da Faixa de Gaza anunciou, nesta sexta-feira (27), a perda de 62 vidas em decorrência de ataques aéreos e disparos atribuídos às forças israelenses. Entre as vítimas, dez pessoas estavam na expectativa de receber assistência humanitária.
As informações foram divulgadas pelo porta-voz da Defesa Civil, Mahmoud Bassal, durante uma entrevista à agência de notícias France Presse (AFP).
Em resposta, as Forças Armadas de Israel confirmaram à AFP que analisaram as alegações feitas por Bassal, mas negaram qualquer envolvimento no ataque a indivíduos que aguardavam ajuda no território gazense.
Além disso, a organização humanitária Ação Contra a Fome reportou que dois de seus colaboradores foram mortos em um ataque realizado por um drone israelense em uma área que não estava sob aviso de evacuação. Mohammed Hussein e Obada Abu Issa perderam a vida "em consequência do ataque dentro de uma região densamente povoada de Gaza", conforme comunicado emitido pela ONG, que expressou pesar pela morte dos trabalhadores, que atuavam na organização há aproximadamente um ano.
No total, 72 indivíduos foram mortos em ataques israelenses apenas nesse dia, segundo o boletim diário do Ministério da Saúde da Faixa de Gaza.
O grupo Hamas fez um apelo à Organização das Nações Unidas (ONU) para que crie uma comissão internacional com o intuito de investigar as mortes de civis causadas pelas forças israelenses durante as operações de entrega de ajuda humanitária na Faixa de Gaza. O Hamas também elevou o número total de vítimas neste tipo de incidente para 570 no último mês.
"Solicitamos à ONU que estabeleça uma comissão internacional para averiguar esses crimes e responsabilizar os culpados", declarou o grupo palestino.
Adicionalmente, o Hamas registrou quase 4 mil feridos "sob o pretexto da distribuição de ajuda" após o início das operações da Fundação Humanitária de Gaza (FHG), que conta com apoio dos Estados Unidos e de Israel.
Uma investigação conduzida pelo jornal israelense Haaretz revelou que soldados israelenses, posicionados nas proximidades dos locais destinados à distribuição de alimentos pela polêmica fundação humanitária, receberam ordens para disparar contra os palestinos que buscavam alimentos sem justificativa aparente.
"É uma zona de matança", relatou um militar ao Haaretz sob condição de anonimato. Este soldado comentou ainda que em sua área de atuação entre uma e cinco pessoas eram mortas diariamente. Ele descreveu a abordagem das forças como "sem medidas adequadas para controle de multidões, utilizando apenas balas disparadas com armas pesadas, lança-granadas e morteiros".
Conforme as declarações coletadas durante a investigação, as forças israelenses disparavam contra aqueles que chegavam antes do horário previsto para os centros de ajuda ou tentavam se aproximar desses locais durante períodos críticos.
Em várias ocasiões, o Exército israelense admitiu ter efetuado "tiros de aviso" contra palestinos que se desviassem das rotas estabelecidas ou que fossem considerados uma ameaça.
A Fundação Humanitária de Gaza refutou essas alegações, apesar da circulação de vídeos captados nos locais dos incidentes e depoimentos de palestinos feridos ao buscarem assistência médica. A maioria apresentava ferimentos provenientes de disparos.
"Abrimos fogo pela manhã se alguém tentar invadir a centenas de metros e, por vezes, atacamos à queima-roupa", disse outro soldado ao Haaretz, observando que "não é certo que os comandantes estejam fazendo justiça pelas suas próprias mãos", enquanto descrevia a Faixa de Gaza como "um universo paralelo".
Por fim, o Exército israelense negou as afirmações contidas na reportagem do Haaretz.