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Por que Caracas virou peça-chave no novo tabuleiro mundial?

- Imagem: Divulgação

Marina Roveda Publicado em 04/01/2026, às 08h00

O início de 2026 não é apenas um eco de 2020; é a sua versão amplificada e, possivelmente, terminal. A captura de Nicolás Maduro por forças de elite norte-americanas, em uma operação cirúrgica atribuída aos Night Stalkers, remove a primeira peça de um dominó que se estende de Washington a Teerã, passando por Pequim e Moscou. Para o observador atento, porém, a queda do regime venezuelano é menos sobre a retórica da “libertação” de um povo e muito mais sobre o fechamento de um cerco energético global.

O xeque-mate no Estreito de Ormuz

Uma análise fria dos fatos aponta para uma estratégia de sobrevivência imperial. Washington avalia que um confronto direto com o Irã tornou-se cada vez mais provável. No entanto, avançar contra Teerã sem assegurar rotas alternativas às do Golfo Pérsico representaria um risco econômico extremo. Ao assumir o controle, direto ou indireto, das maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, localizadas na Venezuela, os Estados Unidos neutralizam a principal arma estratégica dos aiatolás: a ameaça de bloqueio do Estreito de Ormuz.

Com o petróleo venezuelano sob gestão alinhada a interesses norte-americanos, o mercado global passa a dispor de um “pulmão” capaz de absorver o choque de uma guerra no Oriente Médio. Caracas não teria caído apenas por déficits democráticos, mas para garantir que o preço da gasolina em solo norte-americano permaneça politicamente sustentável às vésperas das eleições legislativas (midterms) de 2026.

Ialta 2.0

Circula nos bastidores da mídia russa uma narrativa inquietante: a de que a Venezuela teria sido o “peão sacrificado” em uma nova partilha informal do mundo. Segundo essa leitura, estaríamos diante de um acordo tácito no qual os Estados Unidos retomariam o controle absoluto do Hemisfério Ocidental, enquanto Moscou receberia uma espécie de “luz verde” para encerrar a questão em Kiev, e Pequim avançaria para sua cartada final sobre Taiwan.

A aceleração do reshoring tecnológico nos Estados Unidos, com a internalização da produção de semicondutores, reforça essa hipótese. Se Washington reduz sua dependência dos chips produzidos em Taipé, Taiwan deixa de ser um ativo inegociável. Nesse cenário, o custo estratégico de defender a ilha poderia superar o benefício geopolítico de preservá-la, especialmente se sua eventual perda for compensada pela hegemonia energética nas Américas.

A próxima fronteira: o Peru

O conflito não se limita ao petróleo. O anúncio da China sobre restrições à exportação de prata, insumo relevante para as indústrias bélica e tecnológica, reposiciona o Peru no tabuleiro estratégico. Se a Venezuela concentra o “ouro negro”, o Peru detém a prata essencial para sistemas de armamentos e tecnologias sensíveis.

A lógica é direta: após “arrumar a casa” em Caracas, o foco de Washington pode se deslocar para Lima. O objetivo seria desalinhar a América Latina dos BRICS e assegurar que recursos estratégicos do continente não alimentem a ascensão do "dragão chinês".

O Brasil no olho do furacão

Para o Brasil, a queda de Maduro pode se revelar um presente de grego. A instabilidade na fronteira norte tende a provocar uma crise migratória de grandes proporções, além de pressionar preços e cadeias logísticas regionais. O resultado pode ser uma pressão inflacionária capaz de empurrar economias sul-americanas para um novo ciclo recessivo.

Enquanto parte da comunidade internacional celebra o colapso de um regime autoritário, o custo concreto pode recair sobre o consumidor comum, no supermercado e no posto de combustíveis, em um mercado cada vez mais volátil e operando sob a lógica de economia de guerra.

Teatro ou tragédia?

Permanece a dúvida que ecoa inclusive entre setores da oposição venezuelana: a captura de Maduro teria sido uma encenação negociada? Um acordo de saída cuidadosamente coreografado, travestido de operação heroica, para preservar a imagem das lideranças envolvidas?

Independentemente da resposta, o mundo de 2026 parece seguir um roteiro de inspiração orwelliana. Um planeta fragmentado em grandes blocos de poder regional, onde a verdade se torna a primeira vítima e o caos cibernético, simbolizado pela ameaça de colapso de sistemas financeiros como o SWIFT, é instrumentalizado como ferramenta de “reset” social.

Maduro caiu. Mas Caracas, ao se alinhar a esse novo destino geopolítico, pode estar apenas inaugurando uma era de sombras, na qual o controle da energia vale infinitamente mais do que a liberdade de quem vive sobre ela.

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