COLUNA

Quando os políticos mentem

- Imagem: Reprodução/Magnific

Marcus Vinícius de Freitas Publicado em 01/07/2026, às 09h54

Mentiras fazem parte da história da política. Mas há uma diferença entre um governante que erra no diagnóstico e aquele que constrói deliberadamente uma narrativa falsa para conquistar e manter-se no poder. O primeiro pode ser incompetente. O segundo transforma a mentira em instrumento de governo. E quando isso acontece, o prejuízo não é apenas eleitoral. É econômico, institucional e, muitas vezes, histórico.

O debate voltou ao centro das atenções após o contundente artigo de Michael Heseltine, um dos mais respeitados líderes conservadores britânicos, sobre o Brexit. Quase uma década depois do referendo, Heseltine acusou os defensores da saída do Reino Unido da União Europeia de terem vendido ao país uma fantasia política. O famoso slogan de que o Brexit devolveria £350 milhões por semana ao sistema público de saúde tornou-se o símbolo de uma promessa que jamais se concretizou.  O caso britânico está longe de ser uma exceção. A história recente está repleta de decisões políticas fundamentadas em afirmações que, mais tarde, se revelaram falsas ou profundamente enganosas.

Os Estados Unidos oferecem alguns dos exemplos mais emblemáticos. Em 2003, a invasão do Iraque foi justificada pela alegada existência de armas de destruição em massa. Essas armas nunca foram encontradas. A guerra custou centenas de milhares de vidas, desestabilizou todo o Oriente Médio e gerou consequências geopolíticas que ainda moldam a política internacional. A mentira, nesse caso, não alterou apenas uma eleição; alterou o destino de uma região inteira.

Poucos anos depois, outro episódio reforçou a mesma lógica. Durante quase duas décadas, sucessivos governos americanos insistiram que a guerra no Afeganistão caminhava rumo à vitória. A divulgação dos chamados Afghanistan Papers já indicava que muitas autoridades sabiam, internamente, que a estratégia dificilmente alcançaria os resultados prometidos. Posteriormente, o colapso do governo fantoche afegão — poucos dias após a retirada das tropas — escancarou a hipocrisia do discurso oficial diante da realidade.

Na América Latina, o problema assume outras formas. Na Argentina, por anos, as estatísticas oficiais minimizaram artificialmente a inflação para transmitir uma sensação de estabilidade econômica inexistente. Na Venezuela, promessas de prosperidade permanente foram repetidas enquanto a economia mergulhava na hiperinflação, na escassez e no maior fluxo migratório da história recente da região.

O Brasil também não está imune a essa cultura política. Ao longo das últimas décadas, governos de diferentes orientações ideológicas prometeram crescimento sem reformas estruturais, equilíbrio fiscal sem disciplina orçamentária, combate definitivo à corrupção, redução drástica da violência, melhoria dos serviços públicos sem enfrentar privilégios históricos e desenvolvimento acelerado sem aumento da produtividade. Mudam os partidos, mudam os líderes, mas a lógica permanece a mesma: vende-se ao eleitor a ilusão de que problemas complexos têm soluções simples e imediatas.

Talvez as promessas sedutoras que apelam ao desejo humano de encontrar soluções fáceis para problemas difíceis sejam a maior mentira da política contemporânea. As redes sociais agravaram esse fenômeno. Nunca foi tão fácil transformar uma afirmação falsa em verdade política. Algoritmos premiam indignação, medo e emoção muito mais do que precisão. A mentira torna-se instantânea; a correção, quando chega, quase sempre é tardia e menos convincente.

O problema não está apenas em quem mente, mas na ausência de responsabilização. Na política, muitas vezes, as mentiras servem apenas de prelúdio para a próxima campanha eleitoral. E os partidos políticos não assumem qualquer responsabilidade pelas mentiras difundidas por seus membros.

A democracia, os mercados e as instituições dependem da confiança. Talvez a pergunta mais importante não seja por que os políticos mentem. A história prova que sempre mentiram. A verdadeira questão é por que as sociedades continuam premiando aqueles que prometem o impossível. Será que o povo gosta de ser enganado ou está conformado com a imoralidade?

A verdade costuma ser menos sedutora do que a ilusão. Exige escolhas difíceis, reformas, paciência e responsabilidade. A mentira oferece prosperidade instantânea, soluções milagrosas e culpados convenientes. É justamente por isso que ela continua sendo uma das armas mais poderosas da política e uma das mais perigosas. Enfim, o problema não é que políticos mentem, mas sim que deixamos que fiquem impunes quando a mentira desaba.

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