Marcus Vinícius de Freitas Publicado em 10/06/2026, às 10h50
O poder raramente desaparece quando seus adversários se tornam mais fortes. Na maioria das vezes, ele começa a enfraquecer quando seus aliados deixam de acreditar nele. Ao longo da história, impérios, moedas e instituições sobreviveram menos pela força que possuíam do que pela confiança que inspiravam. Roma não caiu porque os bárbaros se tornaram subitamente invencíveis. Caiu porque a crença na permanência da ordem romana começou a se dissolver. O mesmo ocorreu com a libra esterlina, cuja influência internacional começou a declinar muito antes de perder formalmente sua posição privilegiada no sistema monetário mundial.
O dólar norte-americano encontra-se hoje diante de um desafio semelhante. Não se trata de uma crise econômica tradicional, nem de uma ameaça imediata à sua posição como principal moeda internacional. O desafio é mais profundo e potencialmente mais duradouro: uma lenta erosão da confiança que sustentou a arquitetura financeira construída pelos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial.
Durante décadas, o dólar foi muito mais do que uma moeda. Foi a espinha dorsal da globalização. Governos acumularam reservas em dólares. Empresas realizaram comércio em dólares. Bancos utilizaram o sistema financeiro americano como principal canal para pagamentos internacionais. A força desse sistema não derivava apenas do tamanho da economia dos Estados Unidos ou da profundidade de Wall Street. Derivava da percepção de que Washington administrava um bem público global. O verdadeiro lastro do dólar nunca foi o ouro. Foi a confiança.
Mesmo depois de Richard Nixon romper a conversibilidade entre o dólar e o ouro em 1971, o mundo continuou a aceitar a moeda americana porque acreditava que as instituições dos Estados Unidos permaneceriam estáveis, previsíveis e relativamente neutras. O sistema funcionava porque a maioria dos países considerava os Estados Unidos um guardião confiável da ordem financeira internacional. E a função das Forças Armadas norte-americanas também é preservar o dólar como moeda global.
Entretanto, nas últimas duas décadas, essa percepção começou a mudar. O crescente uso de sanções econômicas, a expansão da jurisdição extraterritorial americana e a utilização da infraestrutura financeira como instrumento de pressão geopolítica provocaram inquietação muito além dos países tradicionalmente vistos como adversários de Washington.
O congelamento de aproximadamente 300 bilhões de dólares das reservas internacionais russas após a invasão da Ucrânia representou um ponto de inflexão. Independentemente do julgamento moral sobre o conflito, muitos governos chegaram à mesma conclusão: ativos considerados seguros podem deixar de ser intocáveis quando a política entra em cena. A questão deixou de ser exclusivamente russa.
Em Nova Délhi, Riade, Jacarta, Ancara e Pretória, formuladores de políticas passaram a refletir sobre uma pergunta fundamental: até que ponto é prudente concentrar reservas, comércio e mecanismos de pagamento em um sistema cuja neutralidade já não parece garantida? A resposta não foi uma revolta contra o dólar. Foi algo muito mais silencioso e, justamente por isso, mais significativo. O mundo começou a diversificar.
Os bancos centrais aumentaram suas reservas de ouro. Países passaram a negociar em moedas locais. A China ampliou o uso internacional do renminbi. Os BRICS intensificaram as discussões sobre mecanismos alternativos de liquidação financeira. Novas plataformas de pagamento surgiram para reduzir a dependência de estruturas controladas pelo Ocidente. Nenhum desses movimentos, isoladamente, ameaça a posição dominante do dólar. Juntos, porém, revelam uma mudança de mentalidade.
O debate internacional já não gira em torno da substituição da moeda americana. Gira em torno da redução da dependência em relação a ela. Essa distinção é fundamental.
Ao contrário do que afirmam algumas previsões apocalípticas, o dólar não está prestes a desaparecer. Continua sendo a moeda mais líquida, mais utilizada e mais confiável do mundo. Hoje não existe um substituto capaz de assumir integralmente seu papel.
O maior desafio para os Estados Unidos não será conter a ascensão da China, dos BRICS ou de qualquer outra potência. Será preservar a legitimidade da ordem que eles próprios construíram. Porque moedas podem ser emitidas por decreto. Confiança não. E, em última instância, é a confiança — e não o poder — que sustenta toda ordem internacional duradoura. E a pergunta fundamental: o governo atual dos Estados Unidos incentiva ou não a confiança naquele país?