Marcus Vinícius de Freitas Publicado em 22/07/2026, às 08h00
Liberdade, igualdade e fraternidade: Poucas fórmulas políticas tiveram impacto tão profundo na história moderna quanto o lema associado à Revolução Francesa. Desde 14 de julho de 1789, esses princípios redefiniram a relação entre o indivíduo, o Estado e a sociedade, inspirando constituições, movimentos de independência, democracias e a própria concepção contemporânea de cidadania.Boa parte da arquitetura política do Ocidente moderno foi construída sobre esse legado. A liberdade tornou-se condição para a realização individual; a igualdade, fundamento da cidadania perante a lei; e a fraternidade, expressão da ideia de que uma sociedade não pode existir apenas como uma coleção de indivíduos defendendo seus próprios interesses.
O século XXI, contudo, é muito diferente daquele que produziu a Revolução Francesa. As sociedades enfrentam desafios que os revolucionários dificilmente poderiam imaginar: inteligência artificial, mudanças climáticas, pandemias, envelhecimento populacional, desigualdade tecnológica, migrações, fragmentação social, crescente insegurança econômica e a hipertrofia do poder hegemônico de um país. A velocidade das transformações parece superar a capacidade das instituições de oferecer respostas.
Talvez não seja necessário abandonar os princípios de 1789, mas, sim, revisá-los.
A experiência chinesa oferece uma perspectiva interessante para essa reflexão. Enquanto a tradição política ocidental moderna coloca a liberdade individual no centro de sua concepção de sociedade, a China contemporânea permite observar a importância atribuída a outras três prioridades: segurança, estabilidade e educação.
Segurança, nesse contexto, significa mais do que proteção física. Inclui segurança econômica, continuidade das políticas públicas, proteção diante de grandes crises e a percepção de que o futuro pode ser planejado. Em sociedades marcadas pela precarização do trabalho e pela incerteza, essa dimensão adquire importância crescente.
A estabilidade parte da convicção de que o desenvolvimento exige continuidade. Grandes transformações raramente ocorrem em um único ciclo eleitoral. Infraestrutura, transição energética, inovação tecnológica e redução da pobreza requerem planejamento, persistência e objetivos que ultrapassem o horizonte imediato.
Já a educação não é apenas um instrumento de mobilidade individual, mas também um investimento coletivo na capacidade futura da sociedade. Educar significa formar cidadãos, desenvolver competências, estimular a inovação e permitir que um país se adapte às mudanças tecnológicas que redefinem o trabalho e a economia.
Seria simplista transformar essa comparação em uma disputa sobre qual modelo é superior. A liberdade continua essencial para proteger o indivíduo contra o arbítrio. A igualdade permanece indispensável diante das assimetrias de renda e de oportunidades. E a fraternidade talvez seja ainda mais necessária em um mundo em que a polarização, as redes sociais e as identidades fragmentadas reduzem nossa capacidade de reconhecer o outro.
Mas talvez seja preciso acrescentar algo à equação. A liberdade sem segurança pode transformar-se em ansiedade. Pouco adianta ser formalmente livre quando se vive sob ameaça de desemprego, violência ou falta de perspectivas. A igualdade sem estabilidade dificilmente se sustenta, pois direitos conquistados podem desaparecer quando as instituições entram em colapso ou as economias deixam de funcionar. E a fraternidade, sem educação, corre o risco de permanecer apenas uma bela aspiração moral.
O desafio político do século XXI talvez seja construir uma nova síntese. O Ocidente tem muito a preservar do legado de 1789. Seria absurdo ignorar conquistas que levaram séculos para serem consolidadas. Mas preservar uma tradição não significa transformá-la em dogma. Sociedades inteligentes aprendem com a própria história e com as experiências de outras civilizações.
O Ocidente pode observar com mais atenção sociedades que colocam a continuidade, a segurança e a formação das futuras gerações entre suas prioridades. Da mesma forma, qualquer sistema que privilegie a estabilidade e a ordem precisa enfrentar uma questão igualmente fundamental: a segurança sem liberdade pode sufocar o indivíduo; a estabilidade sem criatividade, crítica e inovação pode comprometer o próprio progresso que pretende preservar.
Não se trata, portanto, de escolher entre Paris e Pequim, entre 1789 e o século XXI, nem entre modelos apresentados como incompatíveis. Trata-se de reconhecer que experiências históricas distintas podem oferecer respostas diferentes para problemas hoje universais.
A pergunta não é se liberdade, igualdade e fraternidade ainda são valores válidos. A verdadeira questão é saber se, isoladamente, continuam sendo suficientes para organizar sociedades submetidas a transformações tão rápidas e profundas.
Revisitar 1789 significa reconhecer que nenhuma fórmula política permanece imune à passagem do tempo. Cada geração precisa reinterpretar seus grandes princípios diante dos desafios de um mundo em transição cada vez mais exigente.