Marcelo Emerson Publicado em 16/07/2026, às 08h00
A Constituição Federal é clara ao estabelecer que “todo poder emana do povo”. A frase, repetida tantas vezes em discursos oficiais e solenidades, deveria representar a essência da democracia: os políticos não são donos do poder, mas representantes temporários da vontade popular.
O problema é que, no Brasil, parece ter surgido uma inversão perigosa de valores. Em vez de fiscalizar aqueles que ocupam cargos públicos, uma parcela da sociedade passou a defender políticos como se fossem ídolos intocáveis. O debate político deixou de ser uma análise racional sobre propostas, resultados e condutas éticas para se transformar em uma disputa de paixão e torcida.
O recente episódio envolvendo o senador Jaques Wagner, líder do governo no Senado, reacendeu esse debate. Diante das notícias e questionamentos que envolvem seu nome, muitos brasileiros voltaram a discutir não apenas o caso específico, mas uma questão muito mais profunda: por que parte da população reage defendendo seus líderes políticos antes mesmo de buscar esclarecimentos?
A democracia exige cidadãos vigilantes. O político, seja ele de esquerda, direita ou qualquer outra corrente ideológica, deve ser cobrado permanentemente. O dinheiro administrado pelo Estado não pertence aos governantes; pertence ao povo brasileiro, que paga impostos e depende de serviços públicos eficientes na saúde, educação, segurança e infraestrutura.
Quando um político é acusado de envolvimento em irregularidades, a reação de uma sociedade madura deveria ser exigir investigação, transparência e responsabilização, caso sejam comprovadas as condutas ilícitas. A defesa apaixonada e automática de qualquer agente público, independentemente dos fatos, enfraquece as instituições democráticas.
O que causa preocupação é perceber que muitos cidadãos passaram a tratar críticas a determinados políticos como ataques pessoais. Um exemplo disso foi a reação de um internauta diante das críticas a Jaques Wagner: “Lave a boca para falar de Lula”. A frase revela uma lógica preocupante: a defesa de uma liderança política acima da necessidade de questionamento e fiscalização.
O Brasil não precisa de cidadãos que idolatrem políticos. Precisa de cidadãos que cobrem políticos.
A democracia não sobrevive quando o eleitor age como torcedor de uma agremiação partidária e fecha os olhos para eventuais erros daqueles que escolheu para representá-lo. O verdadeiro compromisso deveria ser com o país, com a ética e com o interesse público.
Talvez a pergunta mais importante seja esta: em que momento deixamos de exigir bons representantes e passamos a defender representantes, independentemente de suas atitudes?
Uma democracia forte não é construída por seguidores cegos. É construída por cidadãos conscientes, capazes de reconhecer virtudes e denunciar erros, seja de quem for.
O poder emana do povo. Mas o povo precisa exercer esse poder.