Marcelo Emerson Publicado em 31/10/2024, às 10h29
Nesta coluna, vamos tratar de eleições, democracia e tolerância.
Após os resultados das eleições municipais de 2024, Ronaldo Caiado concedeu entrevista ao jornal o Estado de São Paulo para dizer o seguinte: “a gente não ganha eleição em posições extremadas. As pessoas querem moderação, querem equilíbrio. A população brasileira está cansada dessa queda de braço, desse processo de enfrentamento todo dia”.
A observação do governador de Goiás mirou a postura de Jair Bolsonaro, que entrou num embate pela Prefeitura de Goiânia ao apoiar o candidato Fred Rodrigues (PL), que perdeu a disputa para Sandro Mabel (União Brasil), nome escolhido por Caiado.
Durante a campanha, Bolsonaro chamou Caiado de “covarde”, porque o governador adotou medidas restritivas durante a pandemia.
Indo além da política miúda, as palavras de Caiado surgem em circunstâncias de acirramento da polarização político-partidária em todo o mundo, e que atingiu níveis morais e éticos baixíssimos com posturas nada civilizadas de um certo candidato “coach” em São Paulo.
No mesmo sentido da fala do Governador, o apresentador Ratinho disse que: “está mais do que provado depois dessa eleição de ontem, o povo público é conservador, então a gente tem que entender, nós não somos nem a direita radical e nem a esquerda radical [...] Por que o [Ricardo] Nunes ganhou aqui [SP]? O Nunes, dos candidatos que estavam aí, é o mais equilibrado. Não falou besteira. E o povo vai nessa. O povo é conservador”.
Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, professores da Universidade de Harvard, ensinam que: “Duas normas básicas preservaram os freios e contrapesos dos Estados Unidos, a ponto de as tomarmos como naturais: a tolerância mútua, ou o entendimento de que partes concorrentes se aceitem umas às outras como rivais legítimas, e a contenção, ou a ideia de que os políticos devem ser comedidos ao fazerem uso de suas prerrogativas institucionais”.
Para os fins desta coluna, vamos nos ater à questão da tolerância. Vale dizer que nem todo adversário é um inimigo a ser destruído. O candidato que proponha soluções intolerantes deve ser excluído do jogo político. Na democracia é preciso conviver com rivalidades legítimas.
Cabe aqui o “paradoxo da tolerância” de Karl Popper, que, ao falar de filosofias intolerantes, afirmou: “Mas devemos reservar o direito de suprimi-las, mesmo através de força; porque poderá facilmente acontecer que os intolerantes se recusem a ter uma discussão racional, ou pior, renunciarem a racionalidade, proibindo os seus seguidores de ouvir argumentos racionais, porque são traiçoeiros, e responder a argumentos com punhos e pistolas”.
Ciência política, filosofia e realidade nos obrigam a admitir: nesta questão Caiado e Ratinho estão no caminho que melhor preserva a sociedade civilizada e democrática.