Na mira da PF

PF suspeita de prefeito de Sorocaba e faz buscas; até crime organizado pode estar envolvido

Polícia Federal faz busca na casa de Rodrigo Manga e investiga suposta lavagem de dinheiro, contratos com empresas ligadas ao crime e gastos milionários com redes sociais

Há suspeitas de desvios que variam entre R$ 200 mil e R$ 400 mil mensais para autopromoção do prefeito - Imagem: Divulgação / Polícia Federal

Jair Viana Publicado em 10/04/2025, às 11h35

No radar da Polícia Federal, sob suspeita de desvio de dinheiro da Saúde para bancar sua promoção pessoal nas redes sociais, o prefeito de Sorocaba, Rodrigo Manga (Republicanos), comemora os 100 dias de seu segundo mandato com uma ação de busca e apreensão em sua casa e seu gabinete, nesta quinta-feira (10). Há suspeitas de desvios que variam entre R$ 200 mil e R$ 400 mil mensais para autopromoção do prefeito. A PF apura se o dinheiro é do crime organizado.

Os agentes federais também estão na Secretaria de Saúde que fica no 5º andar da Prefeitura, um abaixo do gabinete de Manga. 

Pretenso candidato a governador nas eleições do próximo ano, Rodrigo Manga tem dedicado boa parte de seu tempo para gravar vídeos que são veiculados em suas redes sociais. 

A reportagem apurou que o nome de Manga aparece em um inquérito instaurado para apurar se contratos firmados pela Prefeitura com empresas que seriam “facada” para lavagem de dinheiro. A ação de hoje ocorre no âmbito da Operação Munditia (do latim, limpeza), que já tinha identificado empresas ligadas ao crime organizado atuando em contratos públicos na cidade.

Outro nome envolvido na operação é o do ex-secretário de Governo de Manga, Vinícius Denone. Ele seria peça-chave no núcleo operacional do suposto esquema, com participação direta nos contratos investigados. Em 2023, o ex-secretário já havia sido citado em outras denúncias envolvendo contratações emergenciais e favorecimento a empresas específicas.

Foco da PF

A Polícia Federal investiga gastos com comunicação digital atribuídos ao prefeito. Estima-se que entre R$ 200 mil e R$ 400 mil mensais tenham sido destinados à produção de conteúdo e impulsionamento de sua imagem pessoal nas redes sociais — parte deles fora dos canais oficiais da Prefeitura. 
Na manhã desta quinta-queira, a PF iniciou o cumprimento a 28 mandados de busca e apreensão em diversas localidades nos estados de São Paulo e Bahia. As operações incluíram ações na Prefeitura Municipal de Sorocaba, na Secretaria Municipal de Saúde.

A investigação, que teve seu início motivado por indícios de fraudes, apura também possíveis casos de lavagem de dinheiro, com transações que incluem depósitos em espécie e movimentações imobiliárias.

Mais de 100 policiais federais estão envolvidos nas buscas que se estendem por diversas cidades paulistas como Araçoiaba da Serra, Votorantim e Santos, além de Vitória da Conquista na Bahia.

Além das apreensões, a Justiça determinou o sequestro de bens e valores que somam R$ 20 milhões. A OS em questão também foi proibida de firmar novos contratos com a administração pública enquanto durarem as investigações.

Os suspeitos investigados poderão ser responsabilizados por uma série de delitos, incluindo corrupção passiva e ativa, lavagem de dinheiro, peculato e irregularidades na contratação pública.

Outro lado

Desde o dia 24 do mês passado a reportagem, tenta falar com o prefeito Rodrigo Manga sobre o assunto. Dez perguntas foram enviadas para que ele respondesse. O secretário Lucas, no dia 25, depois da insistência, disse que o prefeito não faria nenhum comunicado sobre o caso. Veja abaixo as perguntas enviadas e não respondidas:

  1. Prefeito, segundo fontes ligadas à Polícia Federal, há um inquérito em andamento que apura suspeitas de lavagem de dinheiro na Prefeitura de Sorocaba, e seu nome estaria mencionado no contexto de possíveis vínculos com o crime organizado. Ainda segundo essas informações, parte desses recursos estaria sendo destinada à sua promoção pessoal nas redes sociais, com gastos estimados entre R$ 200 mil e R$ 400 mil mensais em impulsionamentos e produção de conteúdo. O senhor confirma essas informações? Caso positivo, qual é a origem dos recursos utilizados em sua comunicação digital particular?
  2. Parte dessa comunicação digital é realizada fora dos canais oficiais da Prefeitura. Esses gastos são custeados com recursos próprios, partidários, de doações ou de empresas contratadas pela Prefeitura?
  3. Existe alguma empresa ou agência que presta serviços digitais ao senhor que também mantém contratos com a Prefeitura de Sorocaba?
  4. Qual o seu posicionamento sobre os contratos firmados pela Prefeitura com empresas suspeitas de ligação com o crime organizado, como apontado na Operação Munditia? O senhor conhecia os donos dessas empresas?
  5. Em relação à compra de CDs e DVDs pedagógicos no valor de R$ 22 milhões — que foram alvo de ação judicial — o senhor considera que houve um erro da administração? O senhor autorizou diretamente essa aquisição?
  6. A Justiça determinou o bloqueio de bens em razão da compra dos kits de robótica. Como o senhor responde às acusações de superfaturamento e direcionamento da licitação?
  7. Em 2023, o TCE considerou irregular a contratação emergencial da OS Aceni para a UPA do Éden. A Corte apontou que a emergência foi “fabricada” pela Prefeitura. O senhor contesta essa avaliação?
  8. Vereadores também apontaram um possível superfaturamento de quase R$ 10 milhões na compra de brinquedos escolares. Há alguma explicação técnica para a desclassificação da empresa com preço menor?
  9. Diante de todos esses episódios, há quem diga que os investimentos em redes sociais têm servido para “maquiar” os problemas da cidade. Como o senhor responde a essa crítica?
  10. O senhor está preparando sua candidatura para outro cargo em 2026? Parte desse esforço de comunicação está vinculado a uma eventual pré-campanha?
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