A popularidade dos bebês reborn — bonecas hiper-realistas que simulam recém-nascidos — chegou ao centro do debate legislativo. A deputada Rosângela Moro (União-SP) propõe acolhimento psicossocial para quem desenvolve vínculos afetivos intensos com os bonecos reborn. Por outro lado, o deputado Paulo Bilynskyj (PL-SP) defende a proibição de qualquer atendimento médico a esses objetos, com punições a profissionais e instituições. Os projetos refletem visões opostas sobre como lidar com um fenômeno que mistura saúde mental, ética e uso de recursos públicos.
A proposta de Rosângela Moro (PL 2323/2025) visa criar um programa de assistência psicológica pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para pessoas que desenvolvem dependência emocional dos bebês reborn. O projeto parte do princípio de que esses vínculos podem estar associados a situações de luto, isolamento social ou carência afetiva, exigindo intervenção humanizada. Entre as diretrizes estão o atendimento pela Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) sem abordagens estigmatizantes, orientação a familiares para identificar sinais de uso compulsivo e parcerias com universidades para estudos clínicos. Moro argumenta que a medida não criminaliza o afeto, mas reconhece a complexidade das dinâmicas afetivas contemporâneas. Em entrevista, destacou que esses vínculos podem ser indícios de sofrimento psíquico e defendeu a necessidade de acolhimento, não de ridicularização. O projeto utiliza a estrutura existente do SUS, sem custos adicionais, e veda qualquer forma de coerção durante o atendimento.
Em oposição, o PL 2326/2025, de autoria de Paulo Bilynskyj, proíbe qualquer tipo de atendimento clínico a bonecos em unidades de saúde públicas ou privadas, incluindo triagens, prescrições ou simulações. A justificativa é evitar o desvio de finalidade do SUS, preservando recursos para pacientes reais. As sanções previstas incluem advertência, suspensão de até 30 dias ou demissão de profissionais de saúde por reincidência, além de multas de até R$ 50 mil para instituições privadas e descredenciamento do SUS. O texto abre exceções apenas para uso terapêutico com laudo médico ou para atividades acadêmicas, como simulações em cursos de enfermagem. Bilynskyj critica casos em que bonecos ocuparam vagas em UTIs ou consultórios, afirmando que isso viola a moralidade pública. Ele ressalta que os recursos do SUS são para salvar vidas, não para “fantasias”, e alerta para possíveis atos de improbidade administrativa em caso de desvio de verbas.
A discussão ganhou força após vídeos de influenciadoras levarem bebês reborn a hospitais, simulando emergências. Estados como Minas Gerais e Rio de Janeiro já propuseram leis similares, incluindo multas para fraudes com bonecos. Enquanto a proposta de Moro enfatiza a saúde mental, a de Bilynskyj foca na eficiência do SUS, refletindo um debate mais amplo sobre até que ponto o Estado deve intervir em relações afetivas atípicas.
As propostas dividem opiniões. Nas redes sociais, usuários criticam o uso do SUS para tratar obsessões, enquanto especialistas em saúde mental defendem a abordagem de Moro, argumentando que ignorar esses vínculos pode agravar transtornos. Os projetos aguardam análise nas comissões da Câmara. Enquanto isso, o fenômeno dos reborns segue em ascensão: bonecos chegam a custar R$ 8,5 mil e já inspiraram até um “Dia da Cegonha Reborn” no Rio de Janeiro.