Lentidão

Justiça "empurra" ação contra ex-prefeito há 27 anos

Néfi Tales, ex-prefeito de Guarulhos, morreu em 2003; seus parentes são réus

Nadim Mazloum, promotor que realizou a denuncia - Imagem: Reprodução

Jair Viana Publicado em 15/05/2025, às 14h19

Há quase três décadas, o processo contra Néfi Tales, ex-prefeito de Guarulhos (SP), acusado de enriquecimento ilícito, permanece sem conclusão no Tribunal de Justiça de São Paulo. Denunciado em 1998 pelo promotor Nadim Mazloum, o caso envolve vários réus, incluindo parentes de Tales e ex-funcionários da Prefeitura. O ex-prefeito, que morreu em 2003, teve bens como apartamentos, fazendas e veículos de luxo bloqueados após operação policial. Hoje, esses itens estão deteriorados: carros viraram sucata e imóveis enfrentam risco de desvalorização total. “Daqui a pouco não vão servir para nada”, alertou Mozloum, que critica a lentidão judicial.  Uma das fazendas, em Barretos, interior paulista, tem um nome curioso: "Salmo 23".

A ação civil pública, complexa, reúne 25 volumes físicos e seis apensos. Após decisão favorável ao Ministério Público em primeira instância, seis réus e a própria instituição recorreram, levando o processo de volta ao segundo grau. A morte de um de Néfi Tales suspendeu o andamento até a habilitação de herdeiros, medida necessária para evitar nulidades. Requerimentos urgentes de terceiros e do município também contribuíram para adiar o julgamento. 

A defesa de Tales sempre negou as acusações, alegando “interesses políticos” e defendendo a legalidade das transações financeiras. Na época da denúncia, o Ministério Público apontou que o patrimônio do ex-prefeito cresceu R$ 5 milhões em um ano, com salário mensal de R$ 7 mil. Tales chegou a ser preso após desaparecer por 11 dias e criticou seu afastamento como “cassação de mandato pelo Judiciário”. 

Embora o Tribunal de Justiça afirme que o processo “não permaneceu paralisado” e está dentro da meta de 100 dias do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) para conclusão, o caso aguarda julgamento definitivo há mais de dez anos no segundo grau. Atualmente, está na Procuradoria Geral de Justiça para análise de contraminuta de agravo interno. Quando retornar ao gabinete, será julgado “de imediato”, segundo o TJ-SP.

Tentou negociar

Até uma tentativa de negociar uma mansão com valor estimado em mais de R$ 1 milhão, na Riviera de São Lourenço, foi registrada no processo.  Márcia Vita, viúva de NéfibTales, tentava negociar o imóvel por R$ 160 mil. Foi negado o pedido.

Enquanto isso, a degradação dos bens bloqueados — símbolos da riqueza questionada — reflete o custo material e simbólico de uma Justiça lenta. Carros zero quilômetro, hoje corroídos, e imóveis abandonados ilustram uma narrativa que, mesmo após a morte do principal réu, ainda aguarda o julgamento.

Prescrição

Iniciada em 1998, a ação proposta pelo Ministério Público contra Néfi Tales, seus parentes e servidores da Prefeitura, pode terminar sem punição a ninguém, pois sua prescrição ocorre em outubro desse ano.

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