Tesla, Nestlé, Coca-Cola e eBay enviaram cartas ao USTR alertando para prejuízos à economia dos EUA caso barreiras comerciais contra o Brasil sejam confirmadas
Letícia Sales Publicado em 07/07/2026, às 09h04
Grandes corporações dos Estados Unidos entraram na disputa comercial entre Washington e Brasília para tentar blindar produtos brasileiros de uma nova rodada de tarifas. Em 1º de julho, empresas como Tesla, Nestlé, Coca-Cola e eBay enviaram cartas ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) pedindo que insumos e mercadorias vindos do Brasil fiquem fora da lista de produtos taxados no âmbito da investigação da Seção 301.
O USTR é o órgão responsável por definir a política comercial americana e investigar práticas consideradas prejudiciais aos interesses dos Estados Unidos, podendo recomendar a aplicação de tarifas retaliatórias. Além de uma taxa de 12,5% já em discussão, o órgão avalia impor uma sobretaxa adicional de 25% sobre produtos brasileiros, sob a justificativa de que o governo brasileiro adotaria práticas que "oneram ou restringem" o comércio bilateral.
Nesta segunda-feira (6), começaram as audiências públicas sobre a proposta de tarifaço, no momento em que o setor privado americano intensifica sua pressão contra a medida.
Tensão diplomática no pano de fundo
O movimento das empresas ocorre em meio a um cenário de forte atrito entre os dois países. Documentos enviados pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, revelam que o Itamaraty identifica "risco" de o governo de Donald Trump utilizar "força militar" contra o território brasileiro, após os Estados Unidos classificarem unilateralmente o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas internacionais.
A escalada já teve desdobramentos práticos: na semana passada, o Departamento do Tesouro americano congelou bens de dois brasileiros e de quatro empresas suspeitos de ligação com o PCC. Mesmo diante desse cenário de tensão política, as corporações argumentam que penalizar comercialmente insumos brasileiros geraria prejuízos imediatos dentro dos próprios Estados Unidos.
Tesla pede isenção para insumos industriais
A montadora de veículos elétricos de Elon Musk solicitou que o USTR isente insumos industriais importados do Brasil. Segundo a empresa, ela vem investindo bilhões de dólares para nacionalizar e diversificar sua cadeia de suprimentos nas Américas, mas essa transição é gradual — e alguns insumos essenciais para setores como veículos elétricos, robótica e baterias ainda não podem ser produzidos internamente com a escala e a qualidade necessárias.
Para a Tesla, aplicar tarifas em ritmo mais acelerado do que a capacidade de adaptação do mercado americano prejudicaria diretamente trabalhadores e consumidores do país.
Nestlé defende café solúvel e colágeno bovino
A multinacional de alimentos pediu a ampliação da lista de produtos isentos, com a inclusão específica do café instantâneo não aromatizado (solúvel) e do colágeno bovino brasileiro. A empresa argumenta que o café em grão não pode ser cultivado em escala comercial no território continental americano, e que o Brasil é o maior exportador mundial de colágeno bovino — insumo do qual a cadeia produtiva dos EUA não dá conta de suprir a demanda da indústria de saúde e bem-estar.
A Nestlé também rebateu preocupações ambientais, informando que 96,7% de suas cadeias de suprimentos de commodities primárias já haviam sido avaliadas como livres de desmatamento até o fim de 2025.
Coca-Cola alerta para a crise da laranja na Flórida
A fabricante de bebidas pediu a manutenção da isenção já proposta para o suco de laranja brasileiro e solicitou que o limão e seus derivados também entrem na lista de produtos livres de tarifas — ou que, ao menos, seja concedido um período de transição.
Segundo a companhia, a produção de laranja na Flórida despencou de 242 milhões de caixas na safra 2003/04 para uma projeção de apenas 12 milhões em 2025/26, resultado de doenças e pragas que atingiram os pomares americanos. Nas palavras da empresa, "o Brasil tornou-se um fornecedor suplementar vital para garantir o café da manhã das famílias americanas". A Coca-Cola argumenta ainda que trocar de fornecedores de cítricos exige tempo para testes de segurança alimentar, e que novas tarifas apenas encareceriam os custos de produção internamente.
eBay pede isenção para produtos usados
Já a plataforma de comércio eletrônico eBay recomendou que o USTR crie uma isenção categórica para produtos de segunda mão, usados e seminovos. Segundo a empresa, as tarifas foram concebidas como um sinal de preço voltado à produção industrial e agrícola brasileira — mas um item usado já teria cumprido seu ciclo de vida, com o fabricante original já remunerado. Nesse caso, a taxa penalizaria apenas o revendedor e o consumidor de baixa renda que busca economizar.
A companhia também apontou a inviabilidade prática de exigir declarações precisas de país de origem para produtos usados, já que cerca de 30% das roupas destinadas à revenda chegam sem etiquetas — o que geraria um custo burocrático e operacional desproporcional tanto para a alfândega americana quanto para pequenos negócios.