Guilherme Sartori Publicado em 10/05/2026, às 08h55
A disputa por uma vaga ao Senado em São Paulo começa a revelar um conflito que vai muito além de nomes. O que está em jogo é a identidade da direita brasileira e a fidelidade ao projeto político construído por Jair Bolsonaro ao longo dos últimos anos.
As recentes movimentações em torno do nome de André do Prado escancararam uma divisão clara entre a base ideológica conservadora e setores mais ligados ao Centrão. A reação de Ricardo Salles não surpreende. Ele vocaliza o sentimento de grande parte da direita paulista, que não aceita ver o Senado transformado em moeda de negociação política.
O eleitor conservador não lutou nas ruas, enfrentou censura e perseguição política para depois assistir acordos de bastidores definirem um cargo estratégico como o Senado Federal. E é exatamente aí que mora o problema.
O Senado de 2026 será decisivo para o futuro institucional do país. A direita sabe que a Casa terá papel central em pautas delicadas, incluindo pedidos de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal. Não se trata apenas de eleger alguém “aliado”, mas alguém comprometido ideologicamente com essa agenda.
E André do Prado não representa essa postura. Seu perfil é visto como próximo demais das articulações tradicionais do poder paulista e distante da direita combativa que se consolidou nos últimos anos.
A preocupação aumenta quando setores ligados a Eduardo Bolsonaro passam a defender composições políticas semelhantes às que ocorreram em Brasília com figuras como Davi Alcolumbre e Hugo Motta. Parte da base bolsonarista entende que essas articulações renderam pouco ou nada à direita em troca do apoio concedido.
Dentro desse cenário, cresce também a percepção de que Michelle Bolsonaro sempre demonstrou maior cautela com acordos políticos que pudessem descaracterizar os princípios defendidos pelo bolsonarismo. Para muitos apoiadores, ela compreende que a força de Jair Bolsonaro nasceu justamente da rejeição às velhas práticas políticas e aos conchavos de bastidor.
Entregar o Senado ao grupo de Valdemar Costa Neto, marcado pelo Mensalão, é abrir mão da direita raiz e dar uma vaga de mão beijada para o Centrão, que há anos vive refém do STF. E se Eduardo Bolsonaro insiste nisso contra a própria consciência, talvez esteja na hora até da militância bovina perceber que algo errado não está certo. Afinal, o que será que estão escondendo na escuridão dos bastidores?