Agenor Duque Publicado em 09/04/2025, às 07h45
O que era para ser um passo estratégico rumo à consolidação de uma aliança comercial mais sólida entre Estados Unidos e Israel acabou se tornando um dos episódios mais polêmicos da relação bilateral recente. Em um movimento inesperado, o ex-presidente Donald Trump anunciou no início de abril a imposição de uma tarifa de 17% sobre os produtos israelenses importados pelos EUA — exatamente no mesmo momento em que Israel havia eliminado todas as tarifas remanescentes sobre produtos americanos.
Para muitos em Jerusalém, a decisão foi recebida como uma traição.
“É uma bofetada no rosto”, declarou uma fonte do governo israelense ao The Jerusalem Post, sob anonimato. O editorial do jornal foi ainda mais incisivo, classificando o ato como “uma vergonhosa traição” ao espírito de parceria entre as duas nações. O gesto israelense, liderado pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e pelo ministro das Finanças Bezalel Smotrich, visava impulsionar a abertura econômica, reduzir o custo de vida e intensificar o comércio bilateral. No entanto, Trump respondeu com uma medida protecionista que abalou os fundamentos da confiança mútua.
O impacto econômico não tardou a se manifestar. De acordo com analistas citados pelo Politico, o prejuízo potencial para Israel pode chegar a US$ 3 bilhões, afetando diretamente setores estratégicos como diamantes, equipamentos médicos, eletrônicos e maquinaria. A perda representa cerca de 0,6% do PIB israelense — um golpe duro para uma economia que ainda se recupera dos efeitos da guerra contra o Hamas e da queda nos investimentos, segundo relatório recente da OCDE.
O presidente da Associação de Fabricantes de Israel, Ron Tomer, alertou: “Essas tarifas têm o potencial de desestabilizar nossa economia, afastar investidores e reduzir a competitividade internacional de nossos produtos.”
Diante da crise, Netanyahu se apressou em reafirmar publicamente o compromisso de Israel em eliminar seu déficit comercial com os EUA. Mas, até o momento, não houve nenhuma sinalização de Trump no sentido de reverter a decisão. Pelo contrário: em declarações à imprensa, o ex-presidente americano justificou a medida citando a ajuda militar anual de US$ 4 bilhões fornecida a Israel, como se isso legitimasse ações unilaterais.
A resposta fria de Washington acendeu um alerta em toda a comunidade diplomática e empresarial israelense: estaria Trump, mesmo sendo considerado um dos presidentes mais “pró-Israel” da história americana, rompendo com essa tradição?
A crítica mais forte não veio de inimigos ideológicos, mas dos próprios aliados: “Israel tem sido um parceiro fiel. Trump pode ter uma política ‘America First’, mas isso não é maneira de tratar um amigo”, diz o The Jerusalem Post.
A verdade é que, além da retórica nacionalista, a política comercial trumpista mostrou-se, mais uma vez, imprevisível — e, para alguns, implacável até mesmo com os mais leais aliados. Se essa decisão será revertida ou não, ainda é cedo para saber. O que já está claro, porém, é que a confiança entre Jerusalém e Washington saiu arranhada dessa nova fase do relacionamento.
Israel foi traído ou apenas vítima de uma estratégia de negociação brutal? Essa pergunta, agora, ecoa entre os corredores da Knesset, dos escritórios de Wall Street e das redações dos maiores jornais do mundo.