Agenor Duque Publicado em 12/12/2024, às 07h48
Pela primeira vez em sua história, a bancada evangélica na Câmara dos Deputados enfrenta uma disputa para definir seu próximo coordenador. Composta por 219 parlamentares, a escolha desse cargo sempre ocorreu por consenso, mas o cenário mudou com a candidatura do deputado Otoni de Paula (MDB-RJ), que tem gerado desconfiança entre seus pares devido a sua aproximação com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Em outubro, Otoni, ex-aliado ferrenho de Jair Bolsonaro, participou de uma cerimônia no Palácio do Planalto para sancionar o Dia da Música Gospel, onde realizou uma oração com Lula. A atitude foi interpretada como um gesto de conciliação, mas também provocou críticas de membros da bancada que seguem alinhados ao ex-presidente Bolsonaro. Em suas redes sociais, Otoni defendeu a oração pelo presidente Lula ao ser informado de sua internação: “Se você como cristão não consegue orar [pelas autoridades], por conta do ódio político, lamento dizer que seu Messias não é o meu”.
A declaração e os gestos de aproximação levaram à entrada de um concorrente: o deputado Gilberto Nascimento (PSD-SP), também pastor da Assembleia de Deus. Ligado ao influente pastor Silas Malafaia, Nascimento representa um segmento da bancada que se mantém fiel ao bolsonarismo. A eleição, inicialmente prevista para esta quarta-feira (11), foi impugnada por Nascimento, que alegou irregularidades no edital. A nova data ainda não foi definida, mas a expectativa é de que o pleito aconteça até fevereiro de 2025.
Otoni de Paula criticou o adiamento da votação: “Eles pediram o adiamento porque sabiam que não tinham votos”. O deputado afirma que sua aproximação com o governo Lula visa estabelecer um canal de diálogo que beneficie a comunidade evangélica. Ele tem apoio de parlamentares do MDB, seu partido, do Republicanos e de outros membros influentes da Assembleia de Deus, como Silas Câmara (Republicanos-AM) e Cezinha de Madureira (PSD-SP).
Por outro lado, Gilberto Nascimento conta com o suporte do PSD, seu partido, e do PL, além do respaldo de lideranças como Marco Feliciano (PL-SP) e Sóstenes Cavalcante (PL-RJ). Malafaia descreveu Nascimento como um “pastor moderado” e afirmou que sua candidatura é a mais adequada para a liderança da bancada.
A divisão entre os dois candidatos reflete também as diferenças teológicas e políticas dentro da própria Assembleia de Deus, a maior denominação evangélica do Brasil. Enquanto Malafaia lidera a Assembleia de Deus Vitória em Cristo, Otoni é vinculado ao Ministério de Madureira, destacando a pluralidade e competição interna da bancada.
O cargo de coordenador da Frente Parlamentar Evangélica é estratégico, pois lidera o grupo nas articulações com o Congresso e o Executivo. Historicamente, a coordenação tem sido usada para influenciar decisões em pautas de interesse do segmento religioso, como a defesa de valores conservadores, políticas de educação e legislações relacionadas à família.
Otoni, que no último biênio renunciou à sua candidatura em prol de um acordo que dividiu a liderança entre Silas Câmara e Eli Borges (PL-TO), acredita que desta vez seu perfil conciliador pode ser decisivo. Porém, ele garante que não está abandonando seus princípios: “Continuo sendo um político de direita, conservador e crítico do governo atual”, mas reitera sua intenção de buscar o diálogo. Em contraposição, Nascimento segue firme em sua postura de resistência ao atual governo.
A possibilidade de uma eleição é inédita e marca um momento de transformação na bancada evangélica, tradicionalmente conhecida por sua unidade. Independentemente do resultado, o processo já sinaliza uma maior diversidade de opiniões e estratégias dentro de um dos grupos mais influentes do Congresso Nacional.