Governo estuda pagar por resultados e contratar skip tracers; críticos alertam para risco de arbitrariedade e violação de direitos
Agenor Duque Publicado em 12/11/2025, às 08h32
Documentos e solicitações de proposta consultados por veículos de imprensa revelam que o governo americano avalia terceirizar parte das operações de localização de imigrantes sem documentos. A proposta prevê pagamento por resultados e bônus de desempenho por localizações confirmadas, com pacotes que podem abranger dezenas de milhares de pessoas por contrato.
Fontes oficiais e pedidos publicados indicam que as empresas contratadas seriam responsáveis por localizar e verificar endereços, produzir relatórios de inteligência e, quando aplicável, entregar documentação ou coordenar transferência para custódia. Modelos operacionais apresentados nas solicitações de proposta descrevem estruturas em que equipes de investigação digital e skip tracers usam bases de dados comerciais, redes sociais e registros públicos para mapear movimentos e pontos de contato.
Escala e metas
Os documentos mencionam lotes de trabalho que variam em torno de 10 mil alvos por pacote com projeções que podem atingir cerca de um milhão de casos ao longo de programas ampliados. A remuneração incluiria pagamentos fixos por serviço e bônus por resultados verificados, como localização correta ou confirmação de presença no endereço informado.
Riscos e críticas
Defensores de direitos civis e alguns legisladores alertam para incentivos perversos em um sistema de pagamento por entrega. Entre os pontos de preocupação estão fiscalização arbitrária, criação de perfis raciais na seleção de alvos, falta de transparência nos critérios de priorização e ausência de mecanismos claros de responsabilização para as empresas terceirizadas. Especialistas em proteção de dados ressaltam ainda que o uso intensivo de fontes comerciais e dados agregados amplifica o risco de erros que podem resultar em danos irreparáveis a pessoas inocentes.
Aspectos legais e de supervisão
Autoridades do Departamento de Segurança Interna e do ICE afirmam que muitos dos planos ainda estão em fase de estudo e que contratos definitivos não foram celebrados. A existência das solicitações de proposta porém já provocou questionamentos jurídicos sobre a legitimidade de delegar funções essenciais de aplicação da lei a atores privados sem controle judicial ou auditoria independente.
Impactos sociais
Analistas apontam que a privatização parcial de tarefas de aplicação migratória pode acelerar deportações em massa e fragilizar salvaguardas processuais. Comunidades vulneráveis podem sofrer aumento de medo e desconfiança em relação a serviços públicos, prejudicando o acesso a direitos básicos e a cooperação com autoridades responsáveis por saúde e segurança.
Conclusão
Transformar localização e verificação em um mercado de serviços com metas e bônus representa uma mudança estrutural na política migratória. Para que iniciativas dessa natureza avancem com segurança jurídica e respeito aos direitos civis, reclamada a existência de regras claras, supervisão independente e total transparência sobre escopo, critérios e auditoria dos contratos.