Quem gosta de viajar geralmente busca os diferentes sabores dos lugares que visita. E quem chega a Brasília encontra um prato típico da capital federal? Para

Redação Publicado em 17/04/2020, às 00h00 - Atualizado às 19h36
Quem gosta de viajar geralmente busca os diferentes sabores dos lugares que visita. E quem chega a Brasília encontra um prato típico da capital federal? Para o professor de Gastronomia Marcos Lélis, esse prato ainda não foi criado. E talvez nem seja.
Lélis explica que, hoje, a característica da mesa de Brasília é reunir os diferentes sabores que existem no Brasil e no mundo. “Brasília contempla tudo que ela quiser, que ela pode contemplar, se ela quiser. De restaurante temático às festas das embaixadas. Por exemplo, a Embaixada da Índia abre as portas e o que eles fazem? Comida. Da Espanha, a mesma coisa. Tailândia, a mesma coisa. Os centros de Tradição Gaúcha (CTGs), a mesma coisa. O pequi – fruto típico do cerrado da Região Centro-Oeste – que floresce aqui também vira comida”, diz.
A leitura que cada um faz sobre o que é um prato típico também é importante para entender se Brasília já produz uma culinária com identidade própria, segundo Marcos Lélis. “Como Brasília está geopoliticamente localizada dentro do estado de Goiás, a gente pode pensar que a cozinha brasiliense é uma cozinha goiana. Também podemos pensar que ela é composta por um tripé nordestino, mineiro e goiano, que formam a maioria dos imigrantes que chegaram aqui, mas que têm características distintas”, afirma.
A auxiliar administrativa Danielle Paiva, que nasceu no Rio de Janeiro e vive em Brasília desde pequena, acredita que a galinha preparada com o pequi já pode ser considerada um prato típico de Brasília. “É de Goiás, mas a gente aderiu.”
Para o professor Marcos Lélis, o que torna um prato típico vai além do fato de a comida ser consumida naquele lugar. Há uma conjunção de fatores. “Por que que a feijoada é um prato nacional? Porque todo mundo consegue ter acesso a todos esses cortes, diferente do tacacá nortista, já que nem todo mundo tem acesso ao tucupi, apesar de a mandioca ser plantada no país inteiro”, explica.
Além da disponibilidade dos ingredientes, de a receita ser acessível à grande parte da população local e de haver demanda por aquele prato, a construção de um prato típico é um processo histórico e cultural que leva muito tempo. Para Lélis, seis décadas ainda é pouco para observar esse processo. “É injusto comparar com qualquer outro estado do Brasil”, argumenta.
Com tantas possibilidades para a culinária brasiliense, o surgimento de um prato típico é incerto, mas os ingredientes locais já são amplamente consumidos em Brasília, e esse consumo pode ser um primeiro passo para a consolidação de uma comida regional. “A gente tem uma identidade que precisa ser valorizada, depois ser supervalorizada. Só assim vamos achar o equilíbrio. A própria cozinha regional brasileira está nos holofotes hoje, e Brasília deveria também ter isso. Deveria valorizar os produtos que são locais. Valorizar esse tripé de formação gastronômica para, a partir daí, criar alguma coisa. Algo que seja nosso”, conclui.
No terceiro episódio da websérie Quem São os Brasilienses, veja o que os brasilienses pensam sobre as comidas típicas de Brasília e sobre a busca de uma identidade culinária única da capital.
AGENCIA BRASIL
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