Na tarde de segunda-feira (18), João Pedro Mattos Pinto, 14 anos, foi morto em uma operação das polícias Federal e Civil no Complexo do Salgueiro , em São

Redação Publicado em 23/05/2020, às 00h00 - Atualizado às 08h55
Na tarde de segunda-feira (18), João Pedro Mattos Pinto, 14 anos, foi morto em uma operação das polícias Federal e Civil no Complexo do Salgueiro , em São Gonçalo, região metropolitana do Rio de Janeiro. O garoto estava na casa da tia com mais cinco adolescentes quando policiais invadiram a residência e dispararam contra ele com um fuzil . Ao Delas, Denize Roza, tia de João Pedro, relata a injustiça e a dor da morte que assola mães, tias e avós daquela região.
“É a dor de todas as mães”, comenta ao lembrar do enterro de João Pedro , na terça-feira (19), que, mesmo com a pandemia, estava cheio de parentes, amigos e vizinhos. “A dor da Rafaela [mãe] é a nossa dor. Assim como foi com ele, poderia ser qualquer uma de nossas crianças”.
O caso de João Pedro não é isolado. Segundo dados da ONU, um jovem negro é assassinado no Brasil a cada 23 minutos. São 63 mortes por dia, com um total de 23 mil vidas interrompidas pela violência letal por ano. E as mulheres do Complexo do Salgueiro sabem disso.
Denize lembra que já era rotina orientar o filho e o sobrinho sobre como agir em caso de uma operação. As indicações eram que eles deveriam deitar no chão e, caso a polícia batesse, deveriam abrir a porta.
“A gente vê isso todos os dias e sabemos que não é algo isolado, mas você não acha que vai acontecer com você, com a sua família. Várias operações acontecem, eles entram arrombando porta… Isso não é mentira para ninguém, mas achamos que estamos protegidos dentro de casa”.
Denize lembra que estava na Praia da Luz, em São Gonçalo , no quiosque da sogra, quando a operação policial começou. O barulho de tiro foi ficando cada vez mais intenso e ela e o pai de João tentaram contato com os meninos, mas, como ninguém atendeu, os dois foram até a casa dela.
“Mesmo com o tiroteio e o helicóptero em cima da gente, não podíamos deixar de ir. Quando chegamos lá, encontramos muitos policiais e as crianças encostadas no muro. Meu filho me viu e começou a chorar”, lembra. Assim que ela e o cunhado entenderam o que tinha acontecido com João, começaram a questionar onde estava o menino, mas não tiveram respostas.
Segundo Denize, os policiais disseram apenas que um helicóptero resgatou o corpo de João ainda com vida , mas não deram mais informações. Sem ser informada sobre o destino do garoto, a família demorou 17 horas até encontrá-lo no Instituto Médico Legal (IML) de São Gonçalo.
A família ainda contesta a versão dos policiais sobre troca de tiros e a presença de bandidos na casa. Em entrevista ao programa Fátima Bernardes , Neilton Matos, pai de João, afirmou: “A polícia quer forjar uma situação. Não tinha bandido . Entraram na casa e tacaram duas granadas. Além dos tiros. Só tinha adolescentes de família”.
Na quarta-feira, o delegado Allan Duarte, da Delegacia de Homicídios de Niterói e São Gonçalo, que investiga o caso, disse ao “RJTV” que já ouviu o depoimento de três policiais civis, duas testemunhas e que ainda receberia um dos pilotos do helicóptero que levou o menino para Lagoa Rodrigo de Freitas também para ouvi-lo.
Segundo o delegado, os policiais descartaram qualquer envolvimento dos jovens que estavam dentro da residência com traficantes em fuga e que também está solicitando a Polícia Federal informações sobre a operação ocorrida no Complexo do Salgueiro e qual foi o resultado. Já a PF confirmou ter participado da operação e afirmou, em nota, que “acompanhará e prestará todas as informações e apoio necessário à elucidação dos fatos”.
A família se divide entre a dor do luto e a luta por justiça. “Foi uma barbaridade. Ainda tem vestígios de granada na casa”, acrescenta Denize ao Delas. De acordo com ela, os policiais deixaram a residência marcada com mais de 70 tiros e, até hoje, nenhuma perícia foi feita para avaliar o local.
“A gente vai lutar até o fim. Queremos fazer justiça. Quem fez isso com ele deve pagar de alguma maneira. Isso não vai o trazer de volta, mas saber que essa pessoa será punida já alivia a dor”, fala.
Quem traz conforto para a dor dos pais e familiares é Rebeca, irmã de cinco anos de João Pedro. “A mãe explicou que o João foi para o céu, mas ela ainda não tem esse entendimento. Ela quer brincar e tirar um sorriso da gente. Apesar de tanta dor, ela consegue amenizar”.
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