
por Reinaldo Polito
Publicado em 13/04/2025, às 08h00
Como é possível afirmar que Tarcísio Gomes de Freitas, governador de São Paulo, venceria as eleições para a presidência da República se as pesquisas apontam Lula como favorito? Analisar os fatos que cercam essa possível campanha é um exercício que exige ponderações além das circunstâncias atuais.
Os institutos de pesquisa, em alguns casos até para justificar os grosseiros equívocos que cometem, são useiros e vezeiros em alardear que pesquisa é uma fotografia do momento. Ou seja, apenas uma ideia do que os eleitores pensam hoje sobre os candidatos. E eles têm toda razão.
Foto desfocada
É como se um “lambe-lambe” registrasse um instante da política. Mas que instante é esse se apenas três ou quatro candidatos revelaram que pretendem concorrer: Jair Bolsonaro, que está inelegível e que, por isso mesmo, nem deveria ser considerado; Ronaldo Caiado, que também enfrenta problemas de inelegibilidade e que, mesmo revertendo essa condição, teria dificuldade para crescer; e o próprio Lula, que apesar de se destacar nas pesquisas, enfrenta dificuldades até para concluir o mandato.
Portanto, a fotografia está desfocada. Quais são os fatos? Um dado significativo é que 66% dos entrevistados aprovam a atuação de Tarcísio à frente do governo. São números incontestáveis. É preciso considerar também que São Paulo é o maior colégio eleitoral do país. Para fechar o que as pessoas pensam do governador paulista, enquanto ele tem apenas 13% de rejeição, Lula galopa nos 42%.
Vantagens de Tarcísio
Agora vamos ao filme. O governador paulista nunca afirmou que seria candidato, apenas aparece na pesquisa como especulação. Se vier mesmo a concorrer, após apresentar seus feitos em contraposição aos de Lula, leva boa vantagem.
Outro ponto a considerar. Sempre que perguntado se será candidato, sua resposta se repete: só há um candidato: Jair Messias Bolsonaro. Essa lealdade, coerente desde a época em que atuou como ministro, agrada aos eleitores, até mesmo quem tem certas reservas ao ex-presidente.
Arrastando multidões
Vamos considerar só os dois candidatos: Lula e Tarcísio. Contrariando as pesquisas, em um eventual segundo turno, os eleitores situados à direita, até por uma vocação antipetista, não teriam dúvidas em cerrar fileira com ele. Sem contar que só seria candidato se Bolsonaro não puder reverter sua inelegibilidade.
Assim, no caso de o ex-presidente ficar fora do páreo, com certeza, terá o seu apoio. E quem receber o aval de Bolsonaro terá mais de meio caminho andado para a vitória. Basta ver as multidões que o ex-chefe do Executivo arrasta em suas andanças.
Um “mártir” injustiçado
Independentemente da admiração conquistada por Bolsonaro, a população hoje o vê como um político perseguido. As narrativas que se mostraram infundadas — de importunação de baleia, falsificação de carteira de vacina, “roubo” de joias, sumiço de móveis da residência presidencial, entre outras — foram caindo por terra uma a uma.
Sua prisão ou a manutenção de sua inelegibilidade talvez fosse vista, para boa parte do eleitorado, como uma ação contra um “mártir” injustiçado. Dessa forma, a única maneira de buscarem justiça para ele seria votando no candidato que patrocinasse. Que não pode ser outro diferente de Tarcísio.
Parentes, parentes, eleição à parte
Os demais concorrentes que poderiam receber a bênção são seu filho Eduardo, sua esposa Michele, os governadores Ronaldo Caiado, Romeu Zema, e Ratinho Junior. Por mais que Bolsonaro queira puxar a brasa para a sua sardinha apoiando um de seus familiares, as chances deles diante da força de Tarcísio são limitadas.
Tanto que especulam sobre a hipótese de Eduardo e Michele concorrerem ao Senado, o que não deixaria de ser uma grande vitória. Onde Bolsonaro põe o dedo vira voto, é uma espécie de pé de coelho. Foram os casos, por exemplo, só para mencionar o Senado, do ex-vice-presidente Hamilton Mourão, do astronauta Marcos Pontes e das ex-ministras Damares Alves e Tereza Cristina, que só se elegeram por surfarem na onda bolsonarista.
Transferência de votos
Em um contraponto que chancela essa análise, basta dizer que dos 20 candidatos apoiados por Bolsonaro ao Senado, 14 se elegeram. Enquanto dos 27 apadrinhados por Lula, só 8 chegaram lá. É uma diferença significativa. E esses números ainda não estavam sob o efeito do tremendo desgaste sofrido pelo governo, que experimenta os piores índices de avaliação da sua história.
Em política tudo é possível. O que não falta é reviravolta. Mas como gostava de afirmar um querido professor que tive na Faculdade de Economia: “ceteris paribus”, Tarcísio já pode vestir a faixa.
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