
por Reinaldo Polito
Publicado em 15/03/2026, às 10h19
Lula está com a faca e o queijo na mão para deslanchar na campanha eleitoral. Pelo simples fato de ser o político mais conhecido do país e ter a máquina na mão, leva enorme vantagem sobre seus adversários. Afinal, quem assina o cheque pode deitar e rolar na busca de votos. Como dizia Dilma, dá para “fazer o diabo”.
Foi só estalar os dedos e acabar com o imposto de renda sobre rendimentos até R$ 5 mil. Também cantou em verso e prosa a redução da jornada de trabalho para 36 horas. São só dois exemplos que mostram bem o poder do incumbente. Diferente do desafiante, que vive quase sempre de pires na mão.
Aliás, esse termo “incumbente”, importado do inglês “incumbent”, passou a ser usado à exaustão nas últimas eleições. Com essa palavra fica mais simples se referir a quem está no cargo de presidente, governador ou prefeito e busca a reeleição. Apesar dessa vantagem, Lula tem dado um passo com uma perna e escorregado com a outra.
O presidente toma decisões que o impedem de crescer nas pesquisas. Ao contrário, sua rejeição tem aumentado a cada levantamento de opinião dos eleitores. Não dá para saber se essas iniciativas são de sua lavra ou se conta com a ajuda de algum “gênio” do marketing político. Pelo que se ouve, ele não é muito de seguir conselhos.
Não importa, caminhando com os próprios pés ou empurrado por seus assessores, o tombo será sempre dele. Esses resultados não se terceirizam. Quem age desfruta os louros ou carrega a cruz. No seu caso, as glórias recentes não têm sido parceiras. Os analistas questionam: como pode um político tão experiente e vencedor cometer deslizes tão primários.
Só na última semana foram dois episódios que jogaram nuvens sobre suas ações populistas. Um deles foi ter faltado à posse de Antonio Kast, no Chile. Além de ter perdido excelente oportunidade para interagir com diversos líderes e mostrar que acima de divergências ideológicas está o interesse do país, abriu espaço para seu concorrente direto, Flávio Bolsonaro, brilhar sozinho na cerimônia.
Deu a impressão para o eleitorado que se tratou de birra pelo fato de o seu oponente também ter sido convidado. A frase é atribuída a Lord Palmerston e ficou famosa no Brasil com Jânio Quadros: entre países não há amizade, mas sim conveniências. Lula perdeu ponto e deixou seu adversário brilhar no momento em que as pesquisas mostram disputa bastante acirrada. Estão empatados no segundo turno.
Outra pisada na bola foi divulgar aos quatro ventos que vai se empenhar junto a Trump para que o PCC e o Comando Vermelho não sejam caracterizados como grupos terroristas. Até poderia ter agido assim nos bastidores, já que diz temer futuras ingerências externas no país. Da forma como se comportou, deu a entender para boa parte do eleitorado que estava defendendo a bandidagem. Mais ponto negativo.
Lula tem longos meses para se valer de suas ações e conquistar os votos de que precisa. Se continuar atuando assim, entretanto, atravessando a rua para escorregar na casca de banana que está na outra calçada, vai amargar gráficos em baixa para sua aprovação e em alta para sua rejeição.
Sem contar que não moveu um dedo sequer para controlar os gastos do governo, reduzir os impostos e baixar as taxas de juros. Ao contrário, continua gastando como se não houvesse amanhã, aumentando impostos e obrigando o Banco Central a manter os juros entre os mais elevados do mundo.
Tudo isso aliado à criminalidade que mais se assemelha a uma guerra, com mortes, roubos e tráfico de drogas, provocou uma tempestade perfeita para deixar Flávio Bolsonaro, que no começo foi até ironizado pelos baixos índices de aceitação, galgar posições vantajosas nas pesquisas.
O desespero de alguns governistas chega a tal ponto que começam a sussurrar aqui e ali que talvez ele não vá até o fim da campanha. Que, a exemplo de Biden, “jogue o boné” antes de outubro. Lógico que é exagero. Ainda mais Lula, que nunca fugiu de uma luta.
E olha que foram muitas: mensalão, petrolão, longo tempo de prisão. Superou todos os desafios e saiu sempre vitorioso. Mas a vida ensina que o que foi bom no passado pode não ser necessariamente no futuro. Talvez seja hora de ele parar de olhar no retrovisor, limpar o para-brisa e pensar no que precisa fazer hoje para desanuviar o futuro.
Pelo andar da carruagem, levando em conta o comportamento errático que demonstra a cada dia, parece que está pedindo para Flávio preparar a faixa e subir a rampa do Palácio do Planalto. Os resultados das pesquisas nos próximos três a quatro meses serão fundamentais para saber quem chegará à presidência em outubro. As apostas já começam a ser feitas: será o incumbente ou o desafiante?
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