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Preso, “Batman” capixaba tira o sono de autoridades e políticos

A prisão de Gilbert Wagner Antunes Lopes, o “Waguinho Batman”, em Itaguaí (RJ), nesta terça-feira (14), não é apenas o fim de uma fuga de dois anos. É a ponta de um iceberg que revela como a influência de um miliciano pode ter atravessado as portas da Polícia Civil e do Judiciário capixaba

Waguinho Batman está preso no Rio, mas deve ser transferido para o Espírito Santo - Imagem: Reprodução
Waguinho Batman está preso no Rio, mas deve ser transferido para o Espírito Santo - Imagem: Reprodução

Jair Viana Publicado em 18/07/2026, às 10h59


Apontado como mandante do assassinato do vereador de Presidente Kennedy Marcos Augusto Costalonga (PL), morto a tiros em maio de 2021, Waguinho Batman era um dos criminosos mais procurados do Espírito Santo. A motivação do crime, segundo as investigações, teria sido uma dívida que o miliciano mantinha com a vítima.

Em junho de 2024, uma operação comandada pelo então delegado de Presidente Kennedy, Tiago Viana, prendeu os executores do crime, mas o mandante escapou. O que aconteceu depois é o que mais chama a atenção.

A transferência que calou o delegado

Um dia após a operação, em 11 de junho de 2024, o então delegado-geral da Polícia Civil, José Darcy Arruda, pediu a Tiago Viana o relatório de indiciamento de Gilbert Wagner, supostamente para encaminhá-lo ao governador Renato Casagrande. Dez dias depois, Viana foi transferido de Presidente Kennedy para Marataízes, cidade vizinha onde Waguinho Batman morava e onde, segundo as investigações, sua milícia atuava.

A justificativa oficial foi proteger a vida do delegado. O efeito prático, porém, foi outro: as ligações telefônicas de Waguinho, que assediavam o delegado, cessaram. Viana não deu detalhes sobre a investigação e afirmou que sua transferência estava devidamente fundamentada no Diário Oficial do Estado.

Darcy Arruda nega qualquer pressão. Em nota, afirmou que “em momento algum houve qualquer tipo de pressão por parte de quem quer que fosse” e que jamais ouvira falar de Waguinho Batman “durante toda a carreira”. Disse ainda que, como delegado-geral, deu “total apoio logístico” à captura, que, no entanto, não ocorreu durante sua gestão.

Três meses para fazer o que não foi feito em dois anos

Em 3 de abril de 2026, Darcy Arruda deixou o cargo sob forte pressão política. O governador Renato Casagrande havia renunciado para disputar o Senado, e Ricardo Ferraço assumiu o governo. Três dias depois, Ferraço nomeou Jordano Bruno Gasperazzo Leite como novo delegado-geral.

Em apenas três meses, Jordano Bruno fez o que a gestão anterior não conseguiu em dois anos: prendeu Waguinho Batman. A captura, em parceria com a Polícia Civil do Rio de Janeiro, ocorreu após cerca de dois meses de monitoramento realizado pela 50ª Delegacia de Polícia de Itaguaí — trabalho que, na prática, começou quando houve decisão para sua execução.

O juiz que ligou para a juíza

O caso, porém, não possui apenas um capítulo policial. Há também um capítulo judicial que levanta ainda mais questionamentos.

O juiz Marcelo Jones de Souza Noto, ex-titular da Vara de Presidente Kennedy, foi aposentado compulsoriamente pelo Tribunal de Justiça do Espírito Santo. Ele nunca atuou no processo de Waguinho Batman. Ainda assim, conforme apurado, ligou para a juíza responsável pelo caso, Priscila Bazzarella de Oliveira, pedindo que ela não decretasse a prisão do miliciano. Não há confirmação de que a magistrada tenha atendido ao pedido.

Não é a primeira vez que o nome de Marcelo Jones Noto aparece em situações controversas. Em novembro de 2021, ele foi aposentado compulsoriamente por tentar coagir uma testemunha. Em outro processo disciplinar, foi acusado de beneficiar um advogado com alvarás e decisões que somam mais de R$ 2 milhões.

O juiz que soltou os executores

O processo está atualmente sob responsabilidade do juiz Douglas Demoner Figueiredo, da 1ª Vara Criminal Regional de Marataízes. Em maio deste ano, Demoner determinou a soltura de três acusados pela morte do vereador — Douglas da Silva Nunes, Elan Martins e Everaldo de Almeida Neto —, apontando irregularidades processuais e constrangimento ilegal.

A decisão foi fundamentada no excesso de prazo e na ausência de perícia em equipamentos eletrônicos apreendidos, que, segundo o processo, permaneceram sob responsabilidade da Polícia Civil de Presidente Kennedy sem terem sido periciados.

Para muitos, a soltura dos executores, somada à demora na captura do mandante durante a gestão anterior e à tentativa de um juiz aposentado de interferir no caso, desenha um cenário, no mínimo, preocupante: o de que a influência de Waguinho Batman se estendia para além das fronteiras de Presidente Kennedy.

Dúvidas

Waguinho Batman está preso. A Justiça do Rio de Janeiro converteu a prisão em flagrante em prisão preventiva. Ele permanece à disposição da Vara Única de Presidente Kennedy.

Mas as perguntas que o caso deixou são mais inquietantes do que as respostas: por que a Polícia Civil não conseguiu prender o miliciano durante dois anos? Por que o delegado responsável pela investigação foi transferido para a cidade onde o acusado morava? Por que um juiz aposentado compulsoriamente ligou para a juíza do caso pedindo que ela não decretasse a prisão de Waguinho? E por que o magistrado que atualmente conduz o processo determinou a soltura dos executores?

A prisão de Batman pode ter retirado um criminoso das ruas. Mas a rede de influência que, segundo os questionamentos apresentados na reportagem, teria contribuído para sua proteção durante tanto tempo ainda desperta dúvidas.

O juiz Douglas Demoner Figueiredo, por meio da assessoria do Tribunal de Justiça do Espírito Santo, negou qualquer relação pessoal com Waguinho Batman.

“Em relação aos questionamentos apresentados, o magistrado esclarece que desconhece o réu mencionado. Afirma não possuir qualquer amizade, proximidade, conhecimento ou inimizade com a pessoa citada, ressaltando que sequer sabe quem ela é”, diz a nota.

O Ministério Público do Estado do Espírito Santo (MPES) também se manifestou, observando que, na investigação, não foram identificados elementos que configurassem ingerência política.

“O Ministério Público do Estado do Espírito Santo (MPES), por meio da Promotoria de Justiça de Presidente Kennedy, informa que já ofereceu denúncia no caso em questão, por homicídio qualificado contra um vereador do município. Até o momento, não há elementos que indiquem qualquer ingerência política no caso. Embora a vítima exercesse mandato de vereador, a motivação do crime, em princípio, não tem relação com sua função pública. Caso não haja mandado de prisão expedido pela Justiça do Estado do Rio de Janeiro, a expectativa é que a Justiça do Espírito Santo determine a transferência do acusado para uma unidade prisional capixaba.”

Até o fechamento desta reportagem, a defesa de Gilbert Wagner Antunes Lopes não havia sido localizada para comentar o caso.

Diálogo entre o então delegado geral, José Darcy Arruda e o delegado Tiago Viana, que investigou a morte do vereador Costalonga

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