Imagens apagadas, uso de imóveis e veículos e viagens conjuntas reforçam suspeita de obstrução das investigações, segundo a Polícia Federal

Letícia Sales Publicado em 08/02/2026, às 08h06
A Polícia Federal (PF) identificou indícios de que o ex-presidente da Rioprevidência, Deivis Marcon Antunes, contou com o auxílio de dois irmãos gêmeos para tentar obstruir as investigações da Operação Barco de Papel, que apura aportes de R$ 970 milhões feitos pelo fundo previdenciário estadual em letras financeiras do Banco Master.
Os irmãos Rodrigo e Rafael Schmitz passaram a ser tratados como comparsas após aparecerem juntos em imagens do circuito interno de um prédio em Botafogo, na zona sul do Rio de Janeiro, onde Deivis mantinha dois apartamentos. Até então, a semelhança física entre os gêmeos dificultava a identificação individual por parte dos investigadores.

De acordo com a PF, Rodrigo mantinha uma relação próxima com Deivis e atuava como uma espécie de secretário informal, com acesso a chaves, senhas e tarefas do ex-chefe da Rioprevidência. Em alguns momentos, Rafael também teria auxiliado nas atividades. Os três se conhecem há cerca de 15 anos, desde quando viviam em Santa Catarina.
Durante o cumprimento de mandados de busca e apreensão, a PF apurou que um segundo apartamento no prédio, oficialmente alugado sob a justificativa de servir como área de lazer para o filho de Deivis, era utilizado pelos irmãos Schmitz. Vizinhos relataram movimentações frequentes dos gêmeos no imóvel.
Os investigadores também encontraram dificuldades para acessar imagens das câmeras de segurança do edifício. Apesar de o sistema armazenar cerca de 30 dias de gravações, apenas dois dias estavam disponíveis. A PF identificou acessos atípicos ao sistema e constatou que Deivis possuía senha de administrador, o que permitiria a exclusão remota das imagens.
Parte do material foi recuperada pela perícia e mostra os irmãos circulando entre os apartamentos, carregando malas e objetos. Para a PF, os registros apagados poderiam conter provas mais sensíveis, incluindo a retirada de materiais relacionados à investigação. Deivis negou ter deletado imagens e afirmou que os objetos estavam sendo levados para outro imóvel próximo, em razão de uma mudança.
A investigação também aponta o uso de veículos registrados em nome de uma empresa ligada a Rodrigo Schmitz, incluindo um Porsche Macan e uma BMW X6. No dia da operação, imagens mostram Rodrigo deixando uma sacola na portaria do prédio, onde a PF suspeita que estivesse a chave de um dos veículos utilizados por Deivis.
O ex-presidente da Rioprevidência foi preso preventivamente na última terça-feira (3), na Via Dutra, ao retornar dos Estados Unidos. No mesmo dia, os irmãos Schmitz foram presos em Itajaí, em Santa Catarina. As defesas não se manifestaram até a publicação desta reportagem.
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