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NOAD: Núcleo da Segurança de SP usa tecnologia para antecipar crimes e proteger vidas

Delegada Lisandréa Salvariego explica como a atuação digital tem ajudado a polícia a agir de forma preventiva

Núcleo da Polícia Civil de SP já impediu mais de 80 estupros virtuais; agentes atuam infiltrados nas redes - Imagem: Arquivo pessoal
Núcleo da Polícia Civil de SP já impediu mais de 80 estupros virtuais; agentes atuam infiltrados nas redes - Imagem: Arquivo pessoal

Lívia Gennari Publicado em 29/04/2025, às 18h50


O avanço das tecnologias tem trazido muitas transformações para a sociedade, mas também trouxe novos desafios para a segurança pública. Em resposta a esses desafios, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) criou, no início de 2024, o NOAD (Núcleo de Observação e Análise Digital), uma estrutura especializada da Polícia Civil que atua no monitoramento, mapeamento e análise de crimes cometidos no ambiente virtual, especialmente aqueles que afetam crianças e adolescentes.

Sob o comando da delegada Lisandréa Salvariego Colabuono, o núcleo tem apresentado resultados relevantes, como o apoio estratégico na prevenção de ataques a escolas e no enfrentamento da violência que se propaga nas redes sociais, como casos de estupro virtual, instigação ao suicídio e a comercialização de conteúdo de pornografia infantil.

"Há inúmeros desafios dentro das redes, são muitos crimes acontecendo. A partir de então, foi traçada uma dinâmica de trabalho, com alguns policiais infiltrados e outros fazendo relatórios técnicos, para que os atos criminosos sejam neutralizados", explica a delegada. 

Como o NOAD trabalha?

O trabalho dos policiais e delegados que atuam no núcleo é minucioso e altamente técnico. Após se infiltrarem como observadores digitais em grupos suspeitos, sem jamais interagir ou interferir nas conversas, os agentes coletam informações cruciais sobre possíveis crimes em andamento.

“Nos infiltramos e, como observadores digitais, identificamos o alvo”, explicou a delegada.

A partir dessa investigação silenciosa, os profissionais pedem quebras de sigilo, tanto às plataformas digitais quanto a órgãos públicos, sempre dentro dos trâmites legais. Todo o material reunido é transformado em um relatório técnico e detalhado.

O relatório é enviado até a autoridade da área dos fatos, que fará a representação por mandados de busca, apreensão e prisão. Segundo Lisandréa, mesmo quando os criminosos tentam se esconder no ambiente digital, a equipe do núcleo consegue rastrear suas ações: “Não existe crime anônimo na internet. Pode demorar, mas sempre conseguimos chegar até o autor do fato.”

Tecnologia a serviço da segurança

O NOAD tem como principal função reunir e produzir informações qualificadas, que permitem a deflagração de operações, a expedição de mandados de busca e apreensão e a prisão de suspeitos. A equipe atua com foco em antecipar os riscos e fornecer suporte estratégico às polícias Civil, Militar e Técnico-Científica.

"Temos feito algumas operações com o DHPP (Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa), e também com departamentos do interior. Tudo depende da área onde o crime ocorre", explica.

Olhos atentos

Lisandréa destaca um aspecto pouco conhecido do trabalho do núcleo: a atuação intensa durante a madrugada.

"É de madrugada onde tudo acontece, nós ficamos infiltrados nas redes e o maior movimento que eu já presenciei é das 23h às 4h", afirmou. Segundo ela, é nesse período que as plataformas digitais registram maior atividade ligada a práticas criminosas, como pedofilia, estupros virtuais e a indução à automutilação. Por isso, as equipes do NOAD mantêm vigilância constante, muitas vezes virando noites para acompanhar, mapear e repassar informações em tempo real às forças policiais.

Fragilidade exposta

A delegada chama atenção para a vulnerabilidade extrema das vítimas desses crimes, muitas vezes tão jovens que sequer compreendem o que está acontecendo.

“Por vezes, a vítima não tem nem idade para entender que é vítima. São crianças, de 7, 8 anos, sendo vítimas desses crimes”, afirmou.

Esse cenário torna o trabalho do núcleo ainda mais urgente e delicado, já que envolve não apenas a identificação dos criminosos, mas também a proteção de menores em situação de risco extremo, que precisam ser amparados antes mesmo de conseguirem pedir ajuda.

Brechas digitais

É preciso identificar também, a responsabilidade das plataformas digitais na prática de crimes virtuais, especialmente aquelas com pouca ou nenhuma moderação ativa no Brasil, como o Discord e o Telegram.

Segundo a chefe do NOAD, muitos criminosos migram para esses ambientes menos controlados, onde há maior liberdade para compartilhar conteúdos ilegais, justamente para planejar ações criminosas sem interferência imediata.

“É natural que quem quer praticar crimes digitais migre para plataformas que têm menos controle. Onde tiver menos moderação, é ali que vai ter criminoso”, afirmou.

Essas brechas na regulação das redes evidenciam como a falta de controle facilita a ação de criminosos no ambiente virtual e, reforça a importância da atuação silenciosa e estratégica das equipes do núcleo.

Casos de destaque

A delegada menciona os bons resultados da Operação Nix, que foi um marco na atuação do NOAD. A ofensiva teve como objetivo desarticular uma rede criminosa envolvida em crimes contra menores de idade, e resultou na prisão de dois suspeitos. 

"Com essa operação, conseguimos demonstrar que os crimes praticados dentro de uma determinada comunidade virtual, tem caráter de crime organizado, porque gera recursos para os organizadores e participantes. Foi um inquérito policial que correu pela Vara dos Crimes Organizados da Capital, uma vitória muito grande para o NOAD", explicou Lisandréa. 

Atuação fundamental para a sociedade

O trabalho do NOAD já gerou resultados concretos e impactantes: mais de 80 estupros virtuais foram impedidos graças à atuação do núcleo. Para a delegada Lisandréa, chefiar essa equipe é motivo de orgulho, apesar da carga emocional que envolve lidar diariamente com crimes graves.

“É um trabalho psicológico e tanto, mas temos que ter equilíbrio suficiente para prosseguir.”

A delegada ressalta o grande atributo do NOAD, que é a dedicação total à proteção das vítimas.

“A gente preza o máximo possível pra salvar vidas, e esse é o grande diferencial do NOAD: o foco na vítima. Salvar vidas não tem preço, quando a gente consegue impedir um crime, isso é realmente gratificante”, afirmou.

É notável que a atuação do NOAD evidencia como o combate ao crime precisa acompanhar a evolução tecnológica e se adaptar às novas formas de violência que surgem no ambiente digital. Mais do que mapear ameaças e identificar criminosos, o núcleo cumpre um papel essencial: proteger vidas que, muitas vezes, nem sabem que estão em risco.

Combinando técnica e ação estratégica, o trabalho realizado pelos agentes do núcleo mostra que a segurança pública do futuro vai além das ferramentas tecnológicas: exige sensibilidade, preparo e um compromisso genuíno com a integridade das vítimas, especialmente as mais vulneráveis.


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