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Massacre de Paraisópolis completa seis anos: " Muito sofrimento aos familiares", diz advogada das vítimas

Ação policial em comunidade da Zona Sul de SP deixou nove mortos e 12 feridos; decisão sobre levar PM's a júri popular está prevista para 2026

Familiares seguem em busca de justiça após seis anos da tragédia - Imagem: Reprodução | TV Globo
Familiares seguem em busca de justiça após seis anos da tragédia - Imagem: Reprodução | TV Globo

Lívia Gennari Publicado em 02/12/2025, às 08h00


Seis anos depois da ação policial que ficou conhecida como Massacre de Paraisópolis, as famílias das vítimas ainda aguardam uma decisão sobre o destino dos 12 policiais militares acusados de matar nove jovens e ferir outras 12 pessoas durante um baile funkna comunidade da Zona Sul de São Paulo.

O juiz Antonio Carlos Pontes de Souza, da 1ª Vara do Júri da Barra Funda, deve decidir a partir de março de 2026 se os réus serão levados a júri popular, uma decisão que pode finalmente dar algum desfecho ao caso. Até lá, os familiares vivem a espera, entre dor, esperança e a luta por justiça.

A advogada Rosa Cantal, que integra a equipe de defesa das famílias, disse em entrevista exclusiva ao Diário de São Paulo, que a demora prolonga a dor dos familiares e mantém a sensação de injustiça.

O ritmo do processo está lento. Demorou muito para marcar audiências. Agora estamos na fase dos Memoriais, que é como uma Alegação Final. Mesmo assim, são quase seis anos de espera, o que causa imensa dor aos familiares”, afirma Rosa.

Famílias vêem processo como tortura

O sofrimento das famílias se mantém intenso. Segundo a advogada, a mãe de uma das vítimas, Cristina Quirino, descreve a espera como uma verdadeira tortura:

É compreensível o que ela diz, já que o processo vai decidir se houve crime doloso contra a vida, ou seja, se houve assassinato e se os culpados serão condenados. Apesar de já terem enterrado seus filhos, para essas famílias o processo significa, como no conto grego de Antígona, a possibilidade de finalmente elaborar o luto, com base na realização da justiça brasileira.”
Ato em frente ao Palácio do Governo de SP repudiou ação da PM | Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

Vídeos, perícia e divergências

Diversos vídeos gravados por moradores e compartilhados nas redes sociais registraram o tumulto que aconteceu durante o baile. Rosa Cantal explica que essas imagens terão papel importante como prova no momento correto, e que as estratégias da acusação ainda serão traçadas.

A advogada também contesta a versão apresentada pela Polícia Militar, de que os jovens morreram ‘acidentalmente’, pisoteados durante o tumulto. Segundo ela, o laudo da perícia indica que oito das nove vítimas morreram por asfixia mecânica, causada pela compressão em um beco sem saída, o que demonstra que as mortes poderiam ser previstas pelas ações da corporação.

O Relatório do CAAF/UNIFESP (Centro de Arqueologia e Antropologia Forense) demonstra que não procede a versão dos policiais. As mortes ocorreram por sufocamento, consequência do pânico provocado pela atuação policial”, afirma.

Atuação policial e desigualdade social

Rosa critica a falta de observância dos protocolos e manuais de atuação:

A polícia conhecia profundamente o local e suas vias de escoamento. Era previsível que essa operação, com a quantidade de pessoas presente, poderia resultar em mortes."

Ela ainda acrescenta que o episódio reflete também preconceito contra os bailes funks e a criminalização da pobreza:

Isso nunca teria ocorrido em uma festa da classe média ou da aristocracia paulista. Os jovens só queriam lazer. Isso é tranquilamente demonstrado pelo levantamento da vida e da história de cada um, de cada jovem que tinha uma vida inteira com suas famílias pela frente, mas que infelizmente tiveram as vidas ceifadas e interrompidas antes da hora."

Quem são as vítimas:

  • Mateus dos Santos Costa, 23 anos;
  • Gustavo Xavier, 14 anos;
  • Marcos Paulo Oliveira, 16 anos;
  • Gabriel Rogério de Moraes, 20 anos;
  • Eduardo Silva, 21 anos;
  • Denys Henrique Quirino, 16 anos;
  • Dennys Guilherme dos Santos, 16 anos;
  • Luara Victoria de Oliveira, 18 anos;
  • Bruno Gabriel dos Santos, 22 anos.
Jovens vítimas do Massacre de Paraisópolis | Imagem: Reprodução

"Pouco mudou desde então"

Para Rosa, o caso Paraisópolis impulsionou debates sobre a atuação policial em comunidades e a legitimidade dos bailes funks, com esforços de familiares e do CAAF/UNIFESP, além de discussões na Câmara Municipal e na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. No entanto, a advogada critica a pouca efetividade dessas mudanças:

“São gigantes os esforços dos familiares e suas lutas por justiça, mas pouco mudou desde então, afirma.

Desde o fato, familiares das vítimas e movimentos sociais vem realizando uma série de protestos e atos públicos para manter viva a memória dos jovens e pressionar por responsabilização dos policiais. Algumas mobilizações aconteceram em frente ao fórum, em praças da cidade e nas redes sociais, mostrando que, mesmo seis anos depois, a luta das famílias continua, unindo dor, resistência e o desejo por justiça.


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