O conjunto habitacional conhecido como Complexo de Israel é um símbolo de um fenômeno que tem sido denominado por alguns pesquisadores como "narcopentecostalismo"

Marina Roveda Publicado em 12/05/2023, às 08h53
Na Zona Norte do Rio de Janeiro, traficantesque dominam favelas como Parada de Lucas e Vigário Geral elegeram referências bíblicas como seus principais símbolos. A facção, que se autodenomina "Tropa de Arão" em referência a uma figura cristã, irmão de Moisés, espalhou a estrela de David em muros e bandeiras nas entradas das favelas, incluindo um neon no alto de uma caixa d'água na comunidade Cidade Alta. A área, segundo a polícia, foi batizada de "Complexo de Israel" pelo chefe da Tropa, em alusão à "terra prometida" para o "povo de Deus" na Bíblia.
A Tropa inicialmente controlava o tráfico em Parada de Lucas e estendeu seu domínio para as comunidades vizinhas. Hoje, controla o tráfico nas favelas de Cidade Alta, Pica-pau, Cinco Bocas e Vigário Geral, segundo a polícia e centros de pesquisa em segurança pública. O Complexo de Israel é emblemático de um fenômeno que alguns pesquisadores chamam de "narcopentecostalismo": não apenas o surgimento de traficantes que se declaram evangélicos, mas a forma como isso influencia a atuação das facções na disputa por territórios no Rio de Janeiro.
"O termo neopentecostalismo tem sido empregado por diversos pesquisadores que analisam o fenômeno de narcotraficantes que assumem, de forma explícita e aberta, religiões neopentecostais, inclusive em suas atividades criminosas", explica a cientista política Kristina Hinz, pesquisadora do Laboratório de Análise da Violência da UERJe doutoranda na Free University de Berlim.
Além da conversão pessoal, a religião também tem um papel estratégico para manutenção do poder e na disputa por territórios, segundo os pesquisadores. A comunidade evangélica tradicional rejeita a ideia de que traficantes possam ser evangélicos. "Um pastor sério não vai aceitar que uma coisa que é ilegal na lei humana e imoral seja associada a Cristo", diz o pastor Carlos Alberto, que atua há 17 anos como pastor na favela da Cidade de Deus e antes era, ele próprio, traficante.
No entanto, traficantes considerados parte do neopentecostalismo não apenas se declaram membros na religião, mas têm uma vida religiosa, apontam pesquisadores. O líder do tráfico no Complexo de Israel é alvo de 20 mandados de prisão por homicídio, tortura, tráfico, roubos e ocultação de cadáver, mas se declara evangélico, espalha referências religiosas pela região e tem amigos pastores, segundo a polícia. “São traficantes que ao mesmo tempo participam da ‘vida do crime’ e da vida religiosa evangélica, indo a cultos, pagando o dízimo e até mesmo pagando por apresentações de artistas gospel na comunidade”, afirma Kristina Hinz.
Segundo pesquisadores, a influência da religião sobre as dinâmicas de poder do tráfico sempre foi presente e não é exclusiva do protestantismo. No entanto, a conversão de traficantes ao pentecostalismo é um fenômeno com características próprias, especialmente em um país que caminha para se tornar maioria evangélica na próxima década.
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