Crianças entre 7 e 16 anos são as mais vulneráveis à sextorsão, enfrentando ameaças e manipulação por parte de agressores online

Redação Publicado em 21/12/2025, às 09h01
O que começa com palavras carinhosas, atenção constante e promessas de afeto pode terminar em uma espiral de medo, chantagem e violência. Esse é o caminho mais comum da sextorsão, crime digital que tem feito crianças e adolescentes reféns de agressores escondidos atrás de telas e perfis falsos.
A dinâmica costuma ser lenta e calculada. O agressor se apresenta como alguém confiável, constrói um vínculo emocional e, com o tempo, pede a primeira foto ou vídeo íntimo. A partir desse momento, segundo autoridades e especialistas, a relação deixa de ser um suposto romance e passa a ser uma extorsão.
“Quando a vítima manda a primeira foto íntima, o primeiro vídeo íntimo, a vida dela e da família acaba”, alerta a delegada Lisandrea Salvariego, chefe do Núcleo de Observação e Análise Digital da Polícia Civil de São Paulo.
A prática, conhecida popularmente como sextorsão, é definida como uma forma de chantagem em que o agressor ameaça divulgar conteúdos íntimos para obter novas imagens, vídeos ou submissão da vítima. Especialistas têm adotado o termo “extorsão sexual” para reforçar que se trata de uma forma de violência e exploração.
“A extorsão sexual envolve ameaça, chantagem e manipulação com o objetivo de abuso e exploração sexual”, explica Juliana Cunha, diretora de projetos especiais da SaferNet Brasil. Segundo ela, crianças e adolescentes são especialmente vulneráveis por ainda estarem em formação emocional e terem maior dificuldade de identificar riscos.
As vítimas mais frequentes têm entre 7 e 16 anos. De acordo com a delegada Lisandrea, crianças mais novas são mais facilmente cooptadas, enquanto adolescentes mais velhos tendem a oferecer maior resistência, embora também possam ser enganados.
O processo é marcado pela paciência do agressor. Em alguns casos, o falso namoro virtual pode durar meses até que a primeira imagem íntima seja solicitada. Depois disso, as exigências se intensificam.
“Ele pede mais e mais. Quando a vítima tenta recusar, o agressor ameaça divulgar o material para pais, amigos, escola. Eles usam engenharia social e conseguem dados pessoais com muita facilidade”, explica a delegada.
O medo é potencializado pela sensação de que as ameaças são reais. Dados pessoais vazados, documentos obtidos ilegalmente e informações sobre a rotina da vítima são usados como prova de que o agressor pode cumprir o que promete.
Com o tempo, a violência pode escalar. Em casos mais graves, vítimas passam a se submeter a situações extremas para evitar a exposição, incluindo práticas de automutilação e estupro virtual, segundo investigações policiais.
Na última semana, um jovem de 18 anos foi preso em Santa Catarina acusado de estimular crianças e adolescentes a se ferirem durante chamadas online. No celular do suspeito, a polícia encontrou imagens de vítimas com ferimentos e símbolos de ódio, o que reforça a gravidade e a crueldade desse tipo de crime.
Embora meninas sejam as principais vítimas, meninos também são alvos. A polícia relata casos de adolescentes que acreditavam manter relacionamento com garotas conhecidas em jogos on-line e acabaram chantageados após o envio de imagens íntimas. Entre os meninos, especialistas também identificam ambientes virtuais que reforçam discursos de ódio e misoginia, ampliando o problema.
Além da violência em si, as vítimas enfrentam outro obstáculo: o silêncio. O medo, a vergonha e o receio de não serem acreditadas impedem muitas crianças de pedir ajuda. Em alguns casos, a própria família não reconhece a gravidade da situação, o que aprofunda o sofrimento.
“O acolhimento é essencial. A criança precisa ser vista como vítima, nunca como culpada”, reforça Lisandrea. Para Juliana Cunha, o primeiro passo no combate à extorsão sexual é quebrar o silêncio. O segundo é garantir que as autoridades ofereçam respostas rápidas e adequadas.
Especialistas destacam que diálogo, acompanhamento familiar e atenção ao comportamento digital das crianças são fundamentais para prevenir esse tipo de crime e interromper ciclos de violência que, muitas vezes, permanecem invisíveis.
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