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Investigação

A morte da “Barbie humana”: laudos desmontam versão do namorado, expõem violência e levantam suspeita de manipulação antes da chegada da polícia

A morte de Bárbara Jankavski Marquez, a 'Barbie Humana', levanta questões sobre a versão apresentada e os indícios de violência encontrados - Imagem: Reprodução/G1
A morte de Bárbara Jankavski Marquez, a 'Barbie Humana', levanta questões sobre a versão apresentada e os indícios de violência encontrados - Imagem: Reprodução/G1

Gabriela Nogueira Publicado em 04/12/2025, às 14h06


A história sobre a morte de Bárbara Jankavski Marquez, conhecida nas redes sociais como a “Barbie humana”, não resiste a uma simples leitura dos documentos oficiais. O que começou como uma ocorrência tratada com naturalidade no 7º Distrito Policial se tornou um caso repleto de sombras, perguntas sem resposta e marcas de violência que contrariam frontalmente a narrativa apresentada pelo advogado Renato Campos Pinto de Vitto, o último a estar com ela com vida.

Aos 31 anos, Bárbara entrou no apartamento vivo e saiu morto. Renato diz que ela caiu da cama, machucou o olho e ao longo do dia piorou até ter um mal súbito. Essa é a versão repetida desde a primeira noite. E essa é a versão que os laudos contradizem ponto por ponto.

O laudo toxicológico joga a primeira pá de cal na tese da overdose. A quantidade de cocaína encontrada é baixa, incompatível com colapso repentino e fatal. Houve metabolização. Isso significa que Bárbara permaneceu viva depois do uso da droga. Nada naquele exame aponta para morte instantânea. Nada sustenta o argumento de que ela teria simplesmente desmaiado e parado de respirar. A toxicologia tira do caminho a explicação mais conveniente para Renato.

A cena do corpo revela ainda mais. O hematoma no olho esquerdo não é uma batida acidental. É profundo, violáceo, típico de impacto forte. As marcas no pescoço sugerem compressão. As marcas nas costas indicam pressão, peso, imobilização. Os livores escurecidos aparecem em mortes que envolvem privação de oxigênio. São sinais que não surgem em quedas banais e tampouco em overdose. São sinais de violência.

O que realmente desloca a morte de Bárbara para o terreno da suspeita é o banheiro. A perícia encontrou gotas de sangue no tapete. E o corpo estava no quarto, limpo, disposto de forma quase cuidadosa, semidespido e com uma toalha cobrindo a região inferior. Para os técnicos, isso não é acaso. Sangue em um cômodo e corpo em outro é roteiro clássico de movimentação pós ferimento. É cena reorganizada. É intervenção humana após a morte. É alguém decidindo o que deveria ou não aparecer.

Enquanto isso, Renato afirma que tentou reanimá-la por nove minutos antes de chamar o socorro. Mas não há marcas proporcionais a esse esforço. Não há explicação para o sangue no banheiro. Não há explicação para as marcas no pescoço. Não há explicação para o hematoma no rosto. A versão que ele repete não conversa com a realidade que a perícia fotografou. As peças não se encaixam e, quanto mais se lê os autos, mais evidente se torna o descompasso entre o que foi dito e o que foi encontrado.

A amiga que passou o dia com o casal, Madeleine Okasima, tenta reforçar a versão do namorado. Diz que Bárbara parecia bem, apesar da droga. Diz que ela caiu da cama. Diz que tudo terminou rápido. Mas não menciona ferimentos graves. Não menciona sinais de violência. Não menciona o sangue. Sua fala omite informações essenciais que o laudo escancara. A repetição das mesmas justificativas, com os mesmos silêncios, levanta suspeita de alinhamento.

A investigação inicial contribuiu para agravar a dúvida. Os celulares do suspeito e da testemunha não foram apreendidos. O celular de Bárbara permaneceu intocado. A casa não foi revista de ponta a ponta. O local não foi reconstituído. São falhas que, num caso cercado de sinais de violência, podem alterar definitivamente o destino da apuração. A família acusa o 7º DP de ter conduzido o começo da investigação de forma passiva, sem rigor técnico e sem tratar a morte como o que ela parecia ser desde o início: um cenário possível de homicídio.

O que se extrai dos autos não é uma história confusa. Pelo contrário, é clara demais. Há um corpo com marcas que não combinam com acidente. Há sangue em cômodo distinto do local onde Bárbara foi encontrada. Há sinais de manipulação da cena. Há uma versão que não explica o que precisa explicar. Há uma ausência de urgência na investigação que preocupa os pais da vítima e especialistas que analisam o caso.

A morte da “Barbie humana” se desenha, documento por documento, como um episódio que não pode ser empurrado para a gaveta das fatalidades. Nada nos autos se comporta como acidente. Nada se comporta como imprevisível. Nada se comporta como natural. E tudo que se comporta como violência permanece sem resposta de quem estava com ela nas últimas horas de vida.


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