Levantamento do Dieese revela perfil dos ambulantes e expõe rotina de longas jornadas e baixa renda nas ruas da capital

Erika Osti Publicado em 05/03/2026, às 14h39
A cidade de São Paulo tem pelo menos 12.671 trabalhadores ambulantes atuando em pontos fixos espalhados por regiões de grande circulação. O número faz parte de um levantamento inédito do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), que mapeou o perfil da categoria e revelou um cenário marcado por informalidade, longas jornadas e renda menor do que a média dos trabalhadores da capital. Segundo o estudo, a maioria desses vendedores trabalha sem autorização da prefeitura e depende exclusivamente da atividade para sobreviver.
A pesquisa identificou 12.337 bancas de comércio de rua em 70 áreas da cidade, incluindo estações de metrô e trem, terminais de ônibus, centros comerciais, hospitais, universidades e unidades do Poupatempo. O levantamento foi realizado entre julho e agosto de 2025 e analisou apenas ambulantes que atuam em pontos fixos.
Entre os trabalhadores entrevistados, 56% afirmaram não possuir licença para exercer a atividade nas vias públicas. Mesmo assim, o interesse pela regularização é alto. De acordo com o estudo, 80% dos ambulantes que trabalham de forma irregular dizem querer obter autorização oficial para continuar vendendo nas ruas.
O comércio ambulante, muitas vezes visto como alternativa temporária, se consolidou como profissão para boa parte da categoria. O levantamento mostra que 43% dos trabalhadores atuam na atividade há mais de 11 anos. Outros 23,1% trabalham como ambulantes entre três e cinco anos, enquanto cerca de um quarto está na atividade há menos de dois anos.
A pesquisa também revela que 86% dos ambulantes dependem exclusivamente da renda obtida nas ruas. Mesmo com jornadas longas, os ganhos são menores do que os da média da população ocupada na cidade. O rendimento médio mensal da categoria gira em torno de R$ 3 mil, pouco mais da metade da renda média dos trabalhadores da capital paulista, estimada em cerca de R$ 5,3 mil.
A carga de trabalho também costuma ser elevada. Enquanto 73,5% dos trabalhadores da cidade cumprem até 44 horas semanais, entre os ambulantes esse percentual é menor. Cerca de 43,5% ultrapassam esse limite, e quase um terço chega a trabalhar mais de 51 horas por semana.
O perfil da categoria revela predominância masculina. Homens representam 63% dos ambulantes e a idade média é de 40 anos. O levantamento também mostra forte diversidade social. Aproximadamente 45% dos trabalhadores são pessoas pretas ou pardas.
Outro dado relevante é a presença de imigrantes. Cerca de 31% dos ambulantes vêm de mais de 30 países. Entre os estrangeiros, os sul-americanos representam aproximadamente um quarto da categoria, com destaque para os bolivianos, que formam o principal grupo entre os imigrantes.
A informalidade também se reflete no acesso à proteção social. O estudo aponta que 75,3% dos ambulantes não contribuem para o INSS e que mais da metade não possui registro como microempreendedor individual.
A rotina nas ruas também é marcada por tensão. Segundo o levantamento, 24% dos trabalhadores disseram já ter sofrido algum tipo de violência ou abuso durante o trabalho. Entre os relatos estão apreensão de mercadorias, agressões verbais ou físicas e até casos de extorsão.
O confisco de produtos é o problema mais frequente, citado por 38% dos entrevistados. Além disso, muitos relatam o medo constante de perder mercadorias, que em muitos casos representam todo o investimento feito para trabalhar.
Diante desse cenário, a principal reivindicação da categoria é a regularização dos pontos de venda. O pedido foi citado por 66% dos ambulantes entrevistados. Entre outras demandas estão o fim das apreensões de mercadorias, regras mais flexíveis para obtenção de licença e melhores condições nas ruas, como acesso a banheiros públicos, água, energia e mais segurança.
Mesmo diante das dificuldades, a maioria afirma que pretende continuar no comércio de rua. Segundo o levantamento, 73% dos ambulantes disseram que não gostariam de mudar de profissão.
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