A adaptação de Eli e sua família ao Brasil revela aprendizados e reflexões sobre a polarização sociopolítica e a busca por pertencimento

por Marina Roveda
Publicado em 23/02/2025, às 08h33
Com uma história de vida que reflete a complexidade da experiência imigrante, Jesus Lobatón, conhecido como "profe" Eli, é um peruano de 50 anos que reside no Brasil há cerca de dez anos. Formado em teologia, Eli não se identifica como praticante religioso, mas encontrou na literatura uma forma de expressão e comunicação, tanto com seu público quanto com suas próprias experiências.
Atualmente, Eli se dedica à venda de livros nas ruas da capital paulista, onde apresenta clássicos da literatura brasileira, incluindo obras do renomado Machado de Assis. No entanto, sua principal obra é um projeto colaborativo com sua filha, Mara Lobatón, de 17 anos. Juntos, eles utilizam a literatura como uma ferramenta para discutir questões relacionadas à imigração.
“A importância da literatura é absoluta”, afirma Eli. Ele se inspira no cientista Carl Sagan, acreditando que cada livro proporciona uma oportunidade de conectar-se com outras pessoas, mesmo aquelas que já partiram. Para ele, a leitura é essencial para ampliar horizontes e aumentar as possibilidades humanas. “Quanto mais restrito for o entendimento do mundo, mais limitadas serão as oportunidades”, complementa.
Além de vendedor de livros, Eli também atua como corretor de imóveis em meio período. Em suas reflexões sobre a leitura, ele descreve o ato como uma forma de “catarse” e considera a escrita como uma terapia pessoal. O peruano acredita que o verdadeiro valor do conhecimento vai além da educação formal; envolve também aspectos familiares e caracteriais. "Os livros produzem seres humanos mais conscientes e esclarecidos", enfatiza.
Casado com uma colombiana, Eli é pai de dois filhos nascidos em Bogotá. A paixão pela escrita é compartilhada com sua filha mais velha. "Mara ama escrever e tem um grande interesse pelas ciências, especialmente astrofísica. Ela fala três idiomas e possui medalhas em competições acadêmicas", orgulha-se Eli.
Em 2023, a dupla lançou o livro intitulado "Nômades Invisíveis", onde Eli contribuiu com capítulos baseados em dados reais enquanto Mara criou personagens fictícios em cenários autênticos. A obra explora as diversas narrativas dos imigrantes em São Paulo, refletindo as experiências vividas pela própria família.
Segundo Eli, "O livro visa comunicar os desafios enfrentados por imigrantes sob uma perspectiva ampla". Ele acredita que os obstáculos vividos são universais e que sua intenção é retratar a experiência imigrante sem dramatizações desnecessárias. “Em 99% das vezes me sinto confortável aqui. As dificuldades existem em todo lugar; no entanto, não percebo o mesmo nível de xenofobia ou racismo que vi em outros países”, comenta.
A adaptação ao Brasil trouxe aprendizados significativos para seus filhos, que enfrentaram um rápido amadurecimento devido à nova cultura e idioma. Eli observa que a polarização sociopolítica no país foi uma realidade percebida desde sua chegada e reflete sobre sua visão filosófica: “Todos nós buscamos um lugar ao sol e um sentido para nossas vidas. Os rótulos de imigrante ou refugiado muitas vezes são definidos por questões políticas e diplomáticas.”
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