Diário de São Paulo
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Falsos médicos investigados

Paciente com dengue morre após atendimento de falsos médicos em hospital da Zona Leste de SP

Polícia aponta que suspeitos realizaram cerca de 2 mil atendimentos irregulares e podem estar ligados a nove mortes por erro médico

A defesa dos suspeitos nega que eles exercessem funções médicas, enquanto o Conselho de Medicina destaca a responsabilidade das autoridades policiais - Imagem: Reprodução
A defesa dos suspeitos nega que eles exercessem funções médicas, enquanto o Conselho de Medicina destaca a responsabilidade das autoridades policiais - Imagem: Reprodução

Letícia Sales Publicado em 27/05/2026, às 10h59


Uma fisioterapeuta diagnosticada com dengue morreu após sofrer uma parada cardíaca enquanto era atendida por dois falsos médicos no Hospital de Clínicas Jardim Helena, na Zona Leste de São Paulo. Segundo a Polícia Civil, os suspeitos não conseguiram executar procedimentos básicos de reanimação durante a emergência. O caso aconteceu em 2024 e faz parte da investigação da Operação Hipócrates II.

As informações foram divulgadas nesta terça-feira (26) pelas autoridades responsáveis pelo caso. A operação apura a atuação ilegal de dois homens suspeitos de se passarem por médicos dentro da unidade hospitalar.

De acordo com o secretário da Segurança Pública, Nico Gonçalves, um dos investigados, Marcos Phelipe de Barros, seria filho de um homem que também exercia ilegalmente a medicina e teria ligação com o crime organizado.

As investigações apontam que Marcos utilizava documentos verdadeiros pertencentes ao médico Nicolas Joseph Della Matta para atuar no hospital. O outro suspeito, Maike César Silva, fugiu para o Chile e é considerado foragido.

Segundo a Polícia Civil, os dois realizaram aproximadamente 2 mil atendimentos em dois anos. Até o momento, nove mortes são investigadas por possível relação com falhas graves nos atendimentos.

Em um dos episódios analisados, a fisioterapeuta internada com dengue apresentou piora no quadro clínico até sofrer uma parada cardíaca. Segundo o delegado José Mariano Filho, os suspeitos não souberam agir diante da situação.

“Eles não sabiam como proceder. Ela passou a ficar em uma situação delicada até que ela teve uma parada cardíaca, e eles não sabiam como ressuscitar. É uma manobra muito simples para uma pessoa com conhecimento técnico realizar”, afirmou o delegado.

Outro caso investigado envolve uma paciente com problemas cardíacos. Conforme a polícia, um laudo do Instituto Médico Legal apontou erro no atendimento como causa determinante da morte.

“Ela ficou oito horas sem que fosse feito um exame cardíaco que apuraria que ela estava com aneurisma na aorta. Por conta desse intervalo de tempo tão longo, ela morreu”, declarou Mariano Filho.

As apurações começaram após denúncias sobre irregularidades nos atendimentos realizados na unidade hospitalar em dezembro do ano passado. Segundo os investigadores, Marcos Phelipe começou atuando na ala pediátrica do hospital, embora até agora não exista confirmação de mortes de crianças relacionadas ao caso.

A polícia também descobriu que ele realizava consultas por telemedicina diretamente de casa. Equipamentos usados nos atendimentos foram apreendidos durante a operação. Já Maike César Silva teria participado de ocorrências emergenciais do Samu de Taboão da Serra, na Grande São Paulo.

A investigação agora busca esclarecer se houve omissão da direção do hospital. Segundo o delegado, os valores pagos aos suspeitos eram menores que os salários recebidos pelos médicos da unidade, o que levantou suspeitas.

“O pagamento que era realizado para esses falsos médicos era diferenciado, a menor. Por que alguém aceitaria ser remunerado a menor? Essa é uma das características”, afirmou.

A Polícia Civil informou ainda que a direção do hospital já havia sido alertada sobre a atuação irregular dos suspeitos em dezembro do ano passado. A Justiça determinou o afastamento da gestora do hospital e do diretor clínico da unidade.

Na avaliação do secretário Nico Gonçalves, a administração do hospital também tem responsabilidade no caso por não verificar adequadamente a documentação e o histórico profissional dos contratados.

A defesa de Marcos Phelipe afirmou que ele é biomédico e negou que ele exercesse a função de médico. Os advogados também disseram que Maike César Silva atua como instrumentador cirúrgico e sustentam que ambos poderiam trabalhar em ambiente hospitalar. A defesa classificou a operação como “midiática e injusta” e afirmou que Maike pretende se apresentar às autoridades.

Em nota, o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo afirmou que o exercício ilegal da medicina é responsabilidade das autoridades policiais e destacou que aciona os órgãos competentes sempre que identifica tentativas de fraude ou pessoas se passando por médicos.

“O Cremesp informa que o exercício ilegal da Medicina é um caso de polícia, uma vez que a atuação do Conselho se limita a profissionais médicos registrados na Autarquia”, informou o órgão em trecho da nota oficial.


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