Profissional afirma que corretor não tinha qualificação para recomendar aplicação de alto risco e estuda ação judicial, que pode se tornar coletiva

Redação Publicado em 20/12/2025, às 12h07
Um médico que atua em um dos hospitais mais caros de São Paulo planeja acionar a Justiça após perder quase R$ 1 milhão investido na Bolsa de Valores sob orientação de um corretor ligado ao Banco Safra, em 2020. Segundo ele, outros profissionais teriam passado por situação semelhante, acumulando prejuízos expressivos, o que pode resultar em uma ação coletiva contra a instituição financeira. O corretor envolvido no caso acabou demitido após o episódio.
O médico pediu para não ser identificado e será chamado de João nesta reportagem. À época, ele havia vendido um imóvel e reunido cerca de R$ 3 milhões com a intenção de comprar uma nova residência, de valor mais elevado. De acordo com o relato, o Safra sugeriu que o montante fosse investido enquanto, paralelamente, o cliente contrataria um empréstimo junto ao banco para complementar o valor da compra.
A proposta previa que os rendimentos mensais dos investimentos seriam suficientes para arcar com as parcelas do financiamento. No entanto, o plano não se concretizou. Orientado por um corretor da instituição, João destinou cerca de R$ 1 milhão à Bolsa de Valores, em operações de alto risco, até então desconhecidas para ele.
O problema veio à tona entre 2021 e 2022, quando o contador do médico identificou um déficit de aproximadamente R$ 900 mil em suas contas. O valor correspondia às perdas acumuladas nos investimentos recomendados. Ao procurar o banco, João afirma ter sido informado de que o corretor responsável não possuía a qualificação necessária para indicar aquele tipo de aplicação financeira.
Segundo o médico, em determinado momento, cerca de 90% dos recursos investidos estavam concentrados no setor varejista da Bolsa, prática que contraria recomendações básicas de diversificação adotadas por instituições financeiras, justamente para evitar que oscilações bruscas comprometam todo o capital do cliente.
Após o prejuízo, João relata que um funcionário da corretora vinculada ao banco reconheceu a má gestão dos recursos e o impacto financeiro sofrido. A instituição teria, então, sinalizado a possibilidade de um acordo para ressarcimento. O médico foi orientado a apresentar uma proposta de valor e, diante da complexidade das movimentações financeiras, contratou uma perita para calcular o montante devido.
O valor apurado chegou a aproximadamente R$ 1 milhão. Segundo João, após o envio da proposta, o banco se comprometeu a responder, o que nunca ocorreu. Para ele, a instituição teria “enrolado” ao perceber que poderia obter vantagem em uma eventual disputa judicial.
Além das perdas na Bolsa, o médico afirma que, por orientação do Safra, contraiu um empréstimo de cerca de R$ 1,5 milhão em novembro de 2020, com parcelas mensais de aproximadamente R$ 25 mil. Ele relata que o banco reteve o valor investido como garantia do financiamento, em uma prática que classifica como “operação casada”.
Atualmente, segundo João, restam cerca de dez parcelas do empréstimo, totalizando R$ 250 mil, enquanto mais de R$ 1 milhão permanece retido como garantia. “É uma garantia abusiva, porque o valor bloqueado é muito maior do que a dívida que falta”, afirma.
Com o fracasso do investimento, o plano de usar os rendimentos para quitar o empréstimo não se concretizou. O médico diz que precisou ampliar significativamente sua carga de trabalho para conseguir honrar as parcelas mensais. “Eu tive de aumentar a minha jornada de trabalho absurdamente para pagar esse empréstimo, enquanto o dinheiro que deveria me ajudar foi sendo reduzido mês a mês”, relatou.
Segundo ele, a situação provocou desgaste financeiro e emocional. “É um estresse enorme acordar todo mês com uma dívida desse tamanho sem ter acesso ao recurso que, inicialmente, garantiria esse pagamento”, afirmou.
O Banco Safra informou que não irá se manifestar sobre o caso.
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