Diário de São Paulo
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Com fita métrica na mão, milícia no Brás media barracas e extorquia ambulantes com "aluguel" de até R$ 15 mil

Ministério Público de SP investiga milícia que extorquia comerciantes informais no Brás, revelando práticas de cobrança metódica

A Promotoria destaca a informalidade do comércio e a presença de imigrantes como fatores que facilitam a atuação de milícias na região. - Imagem: Divulgação / MPSP
A Promotoria destaca a informalidade do comércio e a presença de imigrantes como fatores que facilitam a atuação de milícias na região. - Imagem: Divulgação / MPSP

por Marina Milani

Publicado em 22/02/2025, às 11h35


O Ministério Público de São Paulo (MPSP) revelou detalhes alarmantes sobre uma milícia que extorquia comerciantes informais nas ruas do Brás, no centro da capital paulista. Segundo as investigações, a organização criminosa mantinha um rigoroso controle sobre os pagamentos exigidos dos camelôs, utilizando uma caderneta específica para esse fim.

A quadrilha chegou a medir os espaços ocupados pelos vendedores com fita métrica, estabelecendo uma estrutura de cobrança metódica. Entre os materiais apreendidos durante as operações policiais, destaca-se uma lista datada de 25 de novembro de 2024, referente ao "setor 4 - calçada par", onde era cobrada a quantia de R$ 50. Outra lista identificou o "setor 1 - ímpar", com valores que podiam chegar a R$ 100.

Os documentos, que incluíam nomes de imigrantes sul-americanos, foram encontrados em um imóvel ligado ao casal Peterson Ribeiro Batista e Kelen Fernanda Cardoso. Este casal é considerado sócio dos policiais militares suspeitos de fazer parte da milícia que atua na região do Brás.

De acordo com informações obtidas pelo portal Metrópoles, existiam "diversas planilhas de controle das cobranças realizadas para exercício de comércio em via pública". A milícia utilizava associações como fachada para exigir pagamentos de suas vítimas, entre elas a Cooperativa de Trabalho dos Profissionais do Comércio Solidário do Brás (CoopsBrás), administrada por Kelen e Peterson.

Kelen Batista foi filmada enquanto circulava entre as barracas, acompanhada por cinco homens armados. Ela usava uma trena para medir os espaços ocupados pelos camelôs e demandava dinheiro para permitir que permanecessem em seus locais de venda. Essa ação foi registrada por agentes infiltrados durante uma operação conjunta da Corregedoria da Polícia Militar e do Grupo de Combate ao Crime Organizado (Gaeco).

Em dezembro do ano passado, a operação resultou na execução de mandados de busca e apreensão contra 15 indivíduos, levando à prisão de nove deles. Entre os detidos estavam três policiais militares ativos, três aposentados e uma escrivã da Polícia Civil, todos acusados de compor a milícia em colaboração com a cooperativa gerida por Kelen.

A investigação revelou ainda o uso de câmeras ocultas e escutas telefônicas que documentaram a atuação da milícia no Brás. No último mês, quatro policiais militares foram formalmente denunciados na Justiça Militar por sua suposta participação no esquema criminoso.

O Gaeco identificou os seguintes envolvidos no esquema: o cabo José Renato Silva de Oliveira; os sargentos Wellington Stefani e Humberto de Almeida Batista; a escrivã Viviane Letícia Felix Trevisan; e os PMs aposentados Maurício Oliveira de Souza e Sergio Ferreira do Nascimento. Todos são acusados de integrar o braço armado da extorsão.

A milícia é acusada de cobrar até R$ 15 mil anualmente ou R$ 400 mensais dos ambulantes. Em casos de inadimplência, as vítimas eram encaminhadas aos agiotas que cobravam juros exorbitantes, chegando a 20% ao mês. Segundo um coronel da Corregedoria da PM, um dos policiais ainda atuava cobrando dívidas geradas pelos vendedores com agiotas para saldar a extorsão.

Uma testemunha protegida relatou que inicialmente o grupo exigia R$ 50 pelo uso do espaço público, mas após seis meses esse valor subiu para R$ 3 mil anuais e R$ 200 semanalmente, sendo coercitivos em suas abordagens. No segundo ano, as cobranças aumentaram para R$ 5 mil anuais e R$ 250 por semana. Em setembro de 2023, ao retornar ao trabalho após um período de licença médica, a testemunha foi ameaçada e expulsa por integrantes do grupo que haviam tomado seu lugar.

Quando as dívidas não eram pagas, os mesmos policiais que faziam parte da milícia eram contratados pelos agiotas para exigir o pagamento dos empréstimos. A Promotoria destacou que "a informalidade do comércio e a grande quantidade de imigrantes em situação irregular tornam esses comerciantes vulneráveis à extorsão das organizações criminosas atuantes na região, frequentemente com envolvimento direto de policiais".


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