Diário de São Paulo
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Brasileiros são mantidos reféns e forçados a aplicar golpes em esquema de tráfico humano na Ásia

Vítimas foram enganadas por falsas ofertas de emprego e submetidas a jornadas exaustivas sob ameaças e tortura

Phelipe e Luckas foram mantidos reféns por três meses em Mianmar, obrigados a aplicar golpes financeiros sob ameaça de tortura. - Imagem: Reprodução
Phelipe e Luckas foram mantidos reféns por três meses em Mianmar, obrigados a aplicar golpes financeiros sob ameaça de tortura. - Imagem: Reprodução

por Marina Milani

Publicado em 18/02/2025, às 10h07


O sonho de uma oportunidade no exterior se transformou em pesadelo para dois brasileiros que foram mantidos reféns por três meses em Mianmar, no Sudeste Asiático. Phelipe de Moura Ferreira e Luckas Viana dos Santos caíram em um esquema de tráfico humano disfarçado de vaga de emprego e acabaram sendo forçados a aplicar golpes financeiros contra conterrâneos e vítimas internacionais.

Os dois jovens foram atraídos por promessas de trabalho bem remunerado, mas, ao chegarem ao destino, perceberam que estavam presos em uma verdadeira "fábrica de fraudes". Sob vigilância constante e ameaças físicas, eles eram obrigados a enganar pessoas pela internet, se passando por modelos chinesas que pediam dinheiro. Quem não cumprisse as metas estabelecidas era punido com eletrochoques, espancamentos e outras formas de tortura.

De acordo com Phelipe Ferreira, o trabalho funcionava em turnos extenuantes, chegando a 22 horas diárias. "Não podíamos recusar. Eles monitoravam cada movimento. Se não batíssemos as metas, vínhamos para a sala de punição", relatou.

Os brasileiros tinham um roteiro a seguir: nos primeiros dias, fingiam interesse romântico nas vítimas e colhiam informações pessoais. Depois, induziam os alvos a investir em falsas plataformas financeiras, alegando que poderiam obter grandes retornos. "O golpe era progressivo. Começava com pequenos depósitos e ia escalando até a pessoa perder tudo", contou Phelipe.

Por serem fluentes em português, os reféns eram designados a enganar outros brasileiros. "Isso tornava tudo pior. A gente sabia que estava destruindo vidas, mas se recusasse, pagava um preço alto. Já vi gente sendo torturada por menos", disse Luckas.

Tentativas de escapar eram arriscadas. Segundo os jovens, um colega de outra nacionalidade tentou fugir e foi brutalmente espancado por 20 dias antes de ser amarrado a uma cama de ferro. "Era um alerta para todos nós. Se tentássemos sair, provavelmente morreríamos", afirmou Phelipe.

A reviravolta veio quando um deles conseguiu enviar uma mensagem secreta para familiares, que acionaram o Ministério das Relações Exteriores. Com apoio de autoridades locais, os dois foram resgatados e estão de volta ao Brasil, onde agora colaboram com as investigações sobre o esquema criminoso.


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