Décadas de crises econômicas justificam o flerte com partidos de direita para as eleições deste ano

Marina Roveda Publicado em 22/05/2023, às 08h23
As eleições presidenciais de outubro na Argentinaestão marcadas pela interseção entre política e economia. Exaustos dos partidos tradicionais, especialmente o peronismo, os argentinos têm encontrado força no candidato Javier Milei, representante da direita conservadora. Rotulado como extremista pelos seus oponentes, Milei promete mudanças radicais para recuperar a economia do país e se apresenta como um "anarcocapitalista". Inspirado em figuras como Jair Bolsonaro e Donald Trump, ele adota um discurso antissistema. O primeiro turno das eleições está marcado para 22 de outubro, seguido, se necessário, por um segundo turno em 19 de novembro. Antes disso, em 13 de agosto, os partidos políticos realizarão primárias obrigatórias. Apesar de faltarem alguns meses para a decisão final, especialistas já alertam para a baixa probabilidade de uma vitória do peronismo neste pleito.
"Os peronistas não vão continuar no poder, mas o problema é trocar um populismo de esquerda por um de direita. Esse é o grande risco, pois o candidato de extrema-direita representa um perigo para o país e para o continente, sem mudar em nada a situação da Argentina", opina Márcio Coimbra, coordenador de pós-graduação em relações institucionais e governamentais do Mackenzie. O país enfrenta atualmente uma crise econômica, com uma inflação de 180% nos últimos 12 meses.
Esse desgaste partidário está transformando a Argentinaem um país cada vez mais bipartidário, segundo José Luiz Beired, historiador e professor da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP). O descontentamento com as principais forças políticas do país abre espaço para uma terceira opção, e é exatamente isso que impulsiona a ascensão de Milei. Com um discurso atraente e promessas de modernização, ele tem conseguido atrair os jovens e oferecer soluções radicais para os problemas econômicos do país. "Há dúvidas sobre a viabilidade das ideias de Milei e os riscos que ele pode representar para o país. Se ele vencer, há a possibilidade de reviver a terrível crise de 2001", destaca Beired.
Gustavo Segré, consultor econômico e analista internacional, aponta que parte da atual crise argentina se deve a um projeto populista de esquerda do governo. Ele destaca que quase metade da população recebe algum tipo de ajuda financeira do Estado, além dos 5,8 milhões de empregos oferecidos pelo setor público.
"A conta não aguenta mais. Isso, somado ao problema do déficit fiscal, levou o governo a emitir uma grande quantidade de pesos nos últimos anos. A velocidade de circulação do dinheiro tornou-se um grave problema inflacionário. O governo implementa medidas para solucionar esse problema, mas nada adiantará sem uma melhoria nas contas públicas. A inflação não será reduzida sem uma revisão dos gastos estatais", afirma Segré.
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