
Marlene Polito Publicado em 02/12/2025, às 11h22
A fotografia de um jovem Yanomami nos lembra que o corpo não nasce vazio: ele é inscrição. O olhar, firme e silencioso, afirma que o corpo é mais que pele: é território, ancestralidade e linguagem
Dizem que, na antiga Mesoamérica, havia um jogo em que a vida fazia círculo com o sagrado. O ōllamaliztli, o jogo de pelota, não era esporte, era rito.
Sob o sol duro, os jogadores impulsionavam a bola de borracha como quem tocava o próprio cosmos. E, ao fim, acontecia o impensável para o olhar ocidental: não era o perdedor, mas o vencedor que oferecia o corpo aos deuses. Aquele que triunfava era o mais digno da passagem. O vencedor entrava na eternidade porque atravessava o limite extremo do corpo, e o fazia como oferenda.
Essa lógica revela algo essencial. Cada cultura decide onde o corpo começa e termina. Para nós, ele é limite; para aqueles povos, era ponte, transcendência. Assim, percebemos que o corpo não é uma verdade fixa, mas uma construção simbólica, mutável, plural, viva.
Merleau-Ponty dizia que o corpo não é um objeto que carregamos, mas o modo de perceber esse mundo. Nada fala antes do corpo. Um olhar que se desvia, a mão que aperta, o tronco que recua. Tudo é mensagem silenciosa.
E as leituras do corpo ultrapassam o Ocidente. Em sociedades indígenas, africanas, asiáticas ou do Pacífico, o corpo expressa valores, rituais e cosmologias próprias. Em culturas africanas, é ritmo, dança, pulsação coletiva. Entre povos ameríndios, a pintura corporal marca passagem e festa. No Japão, o gesto contém delicadeza ética. Em tradições hindu e budista, o corpo é coordenação entre espírito, respiração e cosmos.

Antes de ser estilo, a tatuagem foi rito, linhagem, memória gravada na pele.
Esse encontro entre pele, rito e sentido mostra que o corpo não é apenas suporte, mas inscrição viva da cultura. Marcas, pigmentos, adornos e gestos constroem uma gramática corporal que antecede a palavra e afirma pertencimentos profundos.
Se no passado tatuar-se era rito, transgressão ou exclusão, hoje a tatuagem se tornou socializada. Permanece simbólica, só mudou o centro de gravidade. Antes, marcava pertencimento a um grupo; agora, muitas vezes indica pertencimento a si mesmo.
Mas essa democratização revela também um paradoxo da modernidade. Nunca estivemos tão livres para marcar o corpo, e nunca fomos tão observados. O corpo inscrito reivindica a presença, enquanto o olhar externo tenta decifrá-lo.

No fio que une seus corações, Frida revela o corpo como território de memória e resistência.
É nesse ponto que Las Dos Fridas se impõe. As duas figuras unidas por um fio de sangue revelam a dualidade entre o corpo oferecido ao mundo e aquele que guardamos
Uma Frida veste o traje europeu, rígido, herança de um ideal importado; a outra exibe o vestido Tehuana, afirmando a ancestralidade indígena e a força matriarcal do México. Entre elas, o corpo não é apenas forma, é identidade dividida, história pessoal, pertencimento.
O que a arte revela, o corpo confirma. Cada um de nós abriga mais de uma versão de si mesmo. E, por trás da pele, pulsa sempre uma narrativa que tenta se recompor, resistir, mesmo quando tudo parece fragmentado.
É superfície e profundidade, cicatriz e gesto, abrigo e combate.
Durante séculos, o Ocidente buscou o ideal clássico, com proporção, harmonia, juventude, serenidade. O corpo era monumento. Mas a modernidade abre frestas, permite desvios. Modigliani alonga, Schiele distorce, Anita rompe, Botero expande. Cada um, à sua maneira, recusa o corpo estático e inaugura um corpo inquieto, imperfeito, deslocado, vital.
O corpo deixa de representar um modelo ideal para expressar uma experiência. Já não importa a simetria, mas o gesto; não interessa a proporção, mas a presença. O corpo retratado passa a carregar afetos, vulnerabilidades, traumas, memórias.
É nesse deslocamento, quando a arte abandona o ideal e abraça o vivido, que o corpo se torna profundamente humano.

No corpo, a inquietação do tempo moderno.
Cada corpo guarda uma cartografia. Há rugas como margens, cicatrizes como travessias, silêncios como territórios imensos. Somos feitos de dobras, culturais, emocionais, sociais.
A imagem de Ueda abre uma nova forma de ver o corpo, não mais marcado por rito ou gesto, mas suspenso no silêncio do deserto.
O corpo como poesia quieta.
Quando a arte revela o corpo, ela não mostra a forma. Revela a história que a forma carrega. O corpo é manifesto, mas também abrigo; é biografia e enigma. Nele se encontram o que herdamos e o que inventamos.
E enquanto existir essa superfície sensível onde cultura, desejo e presença se cruzam, continuará existindo uma história, única, que só o corpo sabe contar.

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