Era uma vez uma história que se repetia. Até que alguém resolveu recontá-la

por Marlene Polito
Publicado em 10/06/2025, às 10h11
Não sei quantos anos eu tinha. Mas lembro do silêncio que ficou depois. Terminei a leitura de A Menina dos Fósforos, de Hans Christian Andersen, com os olhos marejados e o coração apertado. Como podia uma história tão pequena, tão suave, e tão triste, causar tamanha comoção?
A menina, sozinha na neve, riscando fósforos que acendiam não só a chama, mas também os sonhos e as memórias. E no último clarão... o adeus. Era um conto de fadas? Ou uma verdade crua demais para caber na infância?
Foi ali que intuí, mesmo sem saber direito, que esses contos guardam segredos que vão além do encantamento. Medo, abandono, esperança, silêncio, poder. A “Menina dos Fósforos” foi a primeira lição dada – e aprendida.

Era uma vez, ou ainda é?
Dizem que os contos de fadas começam com “era uma vez”, mas talvez o mais inquietante seja perceber que eles ainda vivem, e seguem se transformando. Encenados no cinema, reescritos nas redes, reinterpretados nas galerias de arte, os velhos contos não dormem como a Bela Adormecida: seguem acordados, disfarçados, resistindo ao tempo e aos valores que tentamos impor.
Entre florestas escuras, espelhos mágicos e maçãs envenenadas, carregam símbolos ancestrais, repetem traumas, codificam medos, ensinam recompensas. Moldaram nossa ideia de amor, beleza e heroísmo, e também de perigo, punição e silêncio.
Muito antes do streaming, a pedagogia do medo já estava na história do Lobo Mau. E antes do empoderamento feminino, havia meninas como a pequena Sereia, que só eram salvas se calassem a própria voz.
O que, afinal, essas fábulas continuam dizendo sobre nós? O que revelam sobre a cultura que nos forjou? E quando a bruxa de Malévola vira musa, ou a princesa, como Elsa ou Aurora, recusa o beijo romântico como destino – quem somos nós no reino encantado?
O bosque simbólico e o que os contos revelam

Muito além da superfície encantada, os contos funcionam como mapas da psique humana. A floresta, por exemplo, não é só cenário: é símbolo. Representa o desconhecido, o inconsciente, o mergulho nas sombras onde o herói ou a heroína precisa se perder para se encontrar.
Jung viu nesses elementos a manifestação dos arquétipos – formas primordiais que atravessam culturas. O lobo não é apenas um animal voraz: é o perigo oculto sob a pele da razão. A madrasta cruel encarna o lado sombrio da maternidade. O espelho da madrasta da Branca de Neve não reflete o rosto, mas a angústia de envelhecer e perder poder. Cada personagem, cada objeto, é uma alegoria fantasiada.
Bruno Bettelheim defendeu que essas histórias funcionam como “terapia simbólica”. Oferecem à mente infantil uma linguagem acessível para lidar com rejeição, inveja, abandono. Ao ver o herói vencer, a criança se sente fortalecida, mesmo sem compreender todos os sentidos ocultos. Mas será que esses sentidos são mesmo tão ocultos assim?
Moral da história: o medo como método
Os contos de fadas nos encantam, e talvez nos moldem também, de forma sutil, quase imperceptível. Por trás da linguagem mágica, escondem-se códigos sociais: instruções discretas sobre como devemos nos comportar.
Nas versões mais conhecidas, deixaram de ser apenas narrativas orais e passaram a ter uma função pedagógica: ensinar obediência, reforçar papéis, punir desvios. Basta olhar com atenção: a menina que desobedece à mãe é devorada pelo lobo. A que morde a maçã é envenenada. A que foge precisa ser salva por um príncipe.
Já os meninos, quando enfrentam o medo, como em João e Maria ou em O Pequeno Polegar, não são punidos. Ao contrário, são recompensados. Vencem a bruxa, burlam o ogro, escapam da morte. E voltam para casa com os bolsos cheios de ouro, joias ou promessas de liberdade.
Nessas histórias, o perigo não está só na floresta, mas no desejo de autonomia, e nos limites que as narrativas impõem sobre quem pode ousar e quem deve esperar.
Recontar para resistir

Nos últimos anos, os contos deixaram de ser apenas lidos. Passaram a ser desafiados. Em livros, filmes, exposições, artistas e escritores vêm desmontando os pilares desses enredos cristalizados. A bruxa virou protagonista, o príncipe perdeu o cavalo branco, a princesa aprendeu a fugir sozinha do castelo.
Nas artes visuais, multiplicam-se interpretações ácidas ou poéticas desses universos. São contos antigos, agora recontados por outras vozes, outros olhares, e outros desejos.
Recontar é, por isso, também resgatar. E talvez seja nesse resgate, entre o que fomos ensinados a crer e o que escolhemos preservar, que ainda brilhe a centelha do encantamento.
Epílogo
Apesar de tudo, ainda guardamos essa lembrança cálida do felizes para sempre.
Ainda acreditamos, como as crianças ao pé do berço, que o bem vencerá o mal, que o amor encontrará seu caminho, que há um príncipe – ou uma princesa – vindo em nossa direção.
Talvez, como nos diz G. K. Chesterton: “Os contos de fadas são mais do que verdade: não porque nos dizem que dragões existem, mas porque nos dizem que podemos vencê-los.”
Panaceia? Talvez.
Mas quem disse que o encantamento precisa ser lógico para ser verdadeiro?

Marlene Theodoro Polito é doutora em artes pela UNICAMP e mestre em Comunicação pela Cásper Líbero. Integra o corpo docente nos cursos de pós-graduação em Marketing Político, Gestão Corporativa e Gestão de Comunicação e Marketing na ECA-USP. É autora das obras “A era do eu S.A.” (finalista do prêmio Jabuti) e “O enigma de Sofia”. [email protected]

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