
por Marlene Polito
Publicado em 11/11/2025, às 09h30
Há uma história de injustiça que nos deixa indignados, mas que que termina com final feliz. Durante muitos anos, Margaret Keane teve seus quadros comercializados pelo marido. Só que ele foi além da venda das obras de arte, assumiu a autoria das pinturas, ao mesmo tempo em que deixava a esposa no ostracismo.
Ela se rebelou e, durante uma ferrenha disputa judicial, o magistrado pediu que marido e mulher pintassem um quadro, e ele foi desmascarado.
Nos anos 1960, o mundo soube, então, que Keane era quem transformava o silêncio em expressão, e interpretava seus personagens num mundo entre o terno e o trágico, revelando o afeto que sobrevive onde tudo parece ter sido deixado para trás.
Suas meninas de olhos imensos, janelas de espanto e silêncio, pareciam ver mais do que podiam compreender. Nelas, a infância é vulnerável, mas não frágil. É sensível e atenta.
Vemos essa mesma ideia nas obras do japonês Yoshitomo Nara. As figuras de Nara são seres lúcidos que carregam nas feições suaves a consciência do mundo. A pureza, que antes significava ingenuidade, agora é consciência desperta.
Em Knife behind the back, a faca, longe de ser ameaça, simboliza o conflito entre ingenuidade e consciência. Nara sugere que a infância, mesmo envolta em doçura, já pressente a violência do mundo, e responde com lucidez silenciosa.
Ao aproximar Keane e Nara, percebemos como ambos tensionam a imagem da infância contemporânea. Se em Keane o olhar denuncia a solidão, em Nara ele resiste à desumanização. Em comum, está a recusa da idealização. Suas crianças não são apenas doces, mas críticas, inquietas, profundamente humanas.
Esse olhar que hoje interroga o mundo, entretanto, tem uma longa história.
Durante séculos, as crianças foram retratadas como adultos em miniatura. Não se via nelas um tempo próprio, apenas um estágio inacabado do ser. Foi preciso que o olhar humano se tornasse mais doce para reconhecer nelas o mistério da vida em formação.
Em A Virgem e o Menino com Santa Ana (1503–1519), Leonardo da Vinci revela o primeiro sorriso verdadeiramente humano da pintura. Com Murillo, em Meninos comendo melão e uvas (c.1670), a cena desce do altar para as ruas de Sevilha: a infância ganha luz, riso, movimento.

No transcorrer dos séculos XVIII e XIX, a imagem traz uma ternura silenciosa, íntima, doméstica. Nada é heroico. Norman Rockwell, em The Runaway (1958), leva a infância ao cotidiano moderno. Ali, o menino fugitivo é acolhido, a inocência encontra a proteção. A infância, enfim, começa a ganhar rosto.

A arte nunca retratou a infância apenas como paraíso. Mesmo nas representações mais ternas, há zonas de sombra e presságios sutis.
Caravaggio, em Amor Vincit Omnia (1602), mostra um Cupido que ri, não com inocência, mas com insolência, como força vital e subversiva.
Mesmo em Murillo, seus meninos descalços irradiam alegria, mas também a denúncia silenciosa da desigualdade.
A criança é, assim, espelho do seu tempo, ora angelical, ora ambígua, sempre humana.
O século XX foi a ponte entre o sonho moderno e o desencanto contemporâneo, o instante em que a arte deixou de buscar a verdade e passou a interrogá-la.
É também o século que amplia o tema da infância. O imaginário infantil invade os jornais, os quadrinhos, a publicidade e a tela. Charlie Brown, de Charles Schulz, faz da tristeza uma forma de sabedoria; Mônica, de Maurício de Sousa, defende seu território com ternura e bravura.
O cinema e a fotografia prolongam o gesto inicial: dão movimento à inocência e voz ao silêncio. Em Sebastião Salgado, as crianças são a síntese entre vulnerabilidade e resistência. Nos filmes de Hayao Miyazaki, meninas enfrentam catástrofes e dilemas morais: a pureza se transforma em coragem.
A cultura pop confirma o que a pintura já intuía. A infância é a medida do humano, não por ser perfeita, mas por revelar nossas contradições mais profundas.
Chegamos, enfim, a Nara e Keane, herdeiros de séculos de encantamento e descoberta. Em suas obras, o olhar infantil já não é espelho do passado, mas convite a repensar o presente. As crianças que retratam não brincam de ser inocentes: observam, interrogam, resistem.
Hoje, diante da pressa e da transparência excessiva, talvez seja a criança, inquieta, lúcida, resistente, quem ainda nos ensine a ver de novo.
Ver com a delicadeza de quem descobre, e não com a pressa de quem já sabe.
Porque o primeiro olhar não é lembrança nem ruptura: é recomeço, o instante em que o mundo, por um breve milagre, volta a nascer dentro de nós.

Marlene Theodoro Polito é doutora em artes pela UNICAMP e mestre em Comunicação pela Cásper Líbero. Integra o corpo docente nos cursos de pós-graduação em Marketing Político, Gestão Corporativa e Gestão de Comunicação e Marketing na ECA-USP. É autora das obras “A era do eu S.A.” (finalista do prêmio Jabuti) e “O enigma de Sofia”. [email protected]

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