Certas fotografias não apenas registraram o mundo, mas ajudaram a inventá-lo

por Marlene Polito
Publicado em 03/02/2026, às 09h50
Há fotografias que não ilustram a história; elas se tornam a própria história. Ao longo do século XX, a fotografia deixou de ser apenas técnica e registro. Tornou-se uma forma de pensamento visual, capaz de moldar sensibilidades, decisões políticas e a própria maneira como percebemos o mundo.
No início, a câmera prometia fidelidade. Com o tempo revelou algo mais profundo: as imagens não apenas mostram o real, elas o constroem.
Algumas fotografias condensaram épocas inteiras em um único gesto. Migrant Mother, de Dorothea Lange, tornou-se o rosto da Grande Depressão.
Nas frentes de batalha, Robert Capa traduziu o caos da guerra em experiência visual imediata, enquanto as imagens oficiais do desembarque na Normandia cristalizaram, quase como uma epopeia moderna, o imaginário da Segunda Guerra Mundial.
No Vietnã, a menina correndo nua após o ataque com napalm transformou o horror distante em evidência incontornável, capaz de atravessar fronteiras e consciências.
Henri Cartier-Bresson, por sua vez, ensinou o mundo a perceber o tempo como revelação súbita, ao fixar o instante decisivo em que o acaso parece ganhar forma.
Essas imagens não apenas registraram fatos. Elas reorganizaram o olhar público e se infiltraram na memória coletiva, convertendo acontecimentos em matrizes visuais da experiência histórica. A fotografia deixou de observar a história e passou a escrevê-la.
No campo da arte, a fotografia deu um passo ainda mais radical: deixou de copiar o mundo e passou a interrogá-lo.
Já nas primeiras décadas do século XX, Man Ray levou a fotografia para o território do sonho. Com seus rayographs, imagens feitas sem câmera, dissolveu a fronteira entre fotografia, desenho e acaso. A fotografia tornava-se gesto poético, escrita da luz.

Cindy Sherman encenou identidades e desmontou estereótipos visuais do feminino. A fotografia deixava de ser espelho e tornava-se linguagem, uma forma de pensar por imagens.
Toda linguagem é também uma forma de poder. Toda imagem governa o visível.
A fotografia também se tornou instrumento de poder. Como prova, legitima discursos científicos e jurídicos. Como propaganda, constrói mitologias políticas. Como vigilância, organiza arquivos de controle. Como memória, decide o que será lembrado e o que será esquecido. O que se fotografa existe. O que não se fotografa tende a desaparecer da história.
No século XX, regimes políticos compreenderam cedo o poder da imagem. Retratos monumentais de líderes, como os de Mao Tsé-Tung, construíam uma aura quase sagrada.
No século XXI, a política tornou-se espetáculo permanente, e figuras como Donald Trump operam em um regime de visibilidade contínua, no qual a performance visual é parte constitutiva do poder.
Se Mao dependia de imagens fixas, Trump depende de imagens em fluxo. O primeiro precisava de ícones; o segundo, de presença incessante. A fotografia, que começou como testemunho, tornou-se encenação do poder.

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Hoje, a fotografia deixou de ser exceção e virou condição de existência. Smartphones transformaram cada gesto em imagem potencial. Selfies, stories, arquivos em nuvem e algoritmos criaram um mundo em que a experiência parece incompleta sem registro. Com a inteligência artificial, imagens podem existir sem mundo. O real tornou-se opcional; a imagem, soberana.
O mundo passou a acontecer para ser visto. Walter Benjamin já intuía, nos anos 1930, que a reprodução técnica transformaria nossa relação com a experiência. Talvez hoje vivamos menos o instante e mais sua reprodução.
Se algumas fotografias mudaram o mundo, é porque a imagem deixou de ser apenas reflexo e passou a ser acontecimento: ela intervém na história enquanto a constrói. A fotografia já não é apenas uma técnica; tornou-se uma condição de existência.
Talvez ainda estejamos aprendendo o que significa habitar um mundo em que não apenas vemos as imagens, mas passamos a viver dentro delas, como se a realidade tivesse se tornado uma galeria

Marlene Theodoro Polito é doutora em artes pela UNICAMP e mestre em Comunicação pela Cásper Líbero. Integra o corpo docente nos cursos de pós-graduação em Marketing Político, Gestão Corporativa e Gestão de Comunicação e Marketing na ECA-USP. É autora das obras “A era do eu S.A.” (finalista do prêmio Jabuti) e “O enigma de Sofia”. [email protected]

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