
por Marauê Carneiro com participação de Fabio Duran
Publicado em 13/03/2025, às 12h22
Já tive a oportunidade de participar de eventos como o Web Summit e de imersões no Vale do Silício, além de estar envolvido há anos com o ecossistema do Cubo Itaú. Sempre estive exposto a ambientes altamente inovadores e criativos. No entanto, o SXSW tem uma dinâmica única. A amplitude e a profundidade dos temas abordados, aliadas à diversidade de pessoas e ideias, fazem com que o evento se destaque de qualquer outro que já experimentei.
O mais impressionante é que essa atmosfera de inovação não está restrita aos centros de convenções. Ela se espalha pela cidade inteira. São dezenas de palestras e painéis acontecendo simultaneamente ao longo de vários dias, além de ativações de marcas e espaços exclusivos de países como Brasil, Alemanha, Holanda e Reino Unido. Isso cria um ecossistema descentralizado, mas altamente conectado, que permite uma imersão total não apenas no conteúdo, mas também na cultura local e nas tendências que vão moldar o futuro.
No seu ponto de vista, quais foram os temas mais impactantes?
A inteligência artificial dominou o evento, como era esperado. No entanto, o diferencial do SXSW foi o foco na aplicação prática da tecnologia. Em muitos eventos, as discussões sobre IA ainda são abstratas ou conceituais, mas aqui a abordagem é diferente. Como parte de uma missão voltada para cidades inovadoras, visitei empresas como Google, Meta, Indeed, Atlassian e Whole Foods. Foi uma oportunidade de ver de perto como a IA já está sendo implementada para aumentar a produtividade e transformar processos do dia a dia.
Além disso, a presença da IA não se limita ao ambiente corporativo. Caminhando por Austin, por exemplo, vi os carros autônomos do Waymo, que já circulam sem motoristas pelas ruas. Essa convivência com a tecnologia no cotidiano reforça o quanto estamos entrando em uma nova era, em que a automação e a IA não são apenas tendências, mas realidades concretas.
Outro tema que me chamou muito a atenção foi a crescente preocupação com a saúde social. Diversos painéis abordaram o impacto das redes sociais no aumento da solidão e na deterioração da saúde mental. A ironia é que a solução para esse problema pode estar justamente na tecnologia. Houve discussões profundas sobre como plataformas podem ser redesenhadas para estimular conexões mais saudáveis e democráticas, e não apenas engajamento a qualquer custo. Um dos destaques foi uma ex-executiva da Meta explicando como as redes podem ser repensadas para fortalecer a democracia e o bem-estar social.
Quais foram os painéis mais impactantes?
Dois painéis se destacaram para mim. O primeiro foi conduzido pelo futurista-chefe da Deloitte, que trouxe uma visão provocadora sobre o impacto da IA no trabalho. Ele argumentou que a era dos especialistas pode estar chegando ao fim. A IA já consegue oferecer conhecimento profundo sobre qualquer tema em poucos segundos, o que significa que o diferencial humano será a capacidade de conectar pontos, enxergar padrões e pensar de forma mais ampla. Essa reflexão muda completamente a forma como devemos encarar o aprendizado e o desenvolvimento profissional.
O segundo destaque foi a gravação ao vivo do podcast Prof G, do Scott Galloway. Além de discutir os impactos econômicos da IA, ele abordou o atual cenário político e econômico dos EUA, especialmente no contexto pós-eleição de Trump. Foi interessante ver como essas discussões não se restringem ao ambiente político, mas influenciam diretamente o mercado, as startups e as grandes empresas de tecnologia.
Além desses, outro painel que merece menção é o da futurista Amy Webb. Sempre uma das palestras mais concorridas do evento, ela conseguiu tangibilizar o que está por vir. Sua provocação central foi: estamos preparados para o que está prestes a acontecer? Ela mostrou como algumas inovações – de curas para doenças a novas formas de produção de alimentos – estão muito mais próximas do que imaginamos. O que antes parecia ficção científica agora está prestes a se tornar realidade.
E as surpresas para o mercado de agências digitais?
Um dos temas que mais me surpreendeu foi o crescimento do mercado de podcasts. O evento dedicou múltiplos espaços para debater esse canal de comunicação sob diferentes perspectivas. Sempre considerei o podcast um meio relevante, mas não imaginava o tamanho do espaço que ele ocupa hoje nos mercados mais avançados.
Um ponto interessante abordado em um dos painéis foi a distinção entre criar um podcast do zero e aproveitar a audiência de um canal já consolidado. Para marcas e agências, pode ser mais estratégico investir no patrocínio de podcasts existentes do que tentar construir uma audiência do zero. Além disso, outro desafio identificado foi a distribuição de conteúdo. Muitas empresas já entenderam a importância de uma boa produção para o podcast, mas ainda falham na estratégia de distribuição. Há um aprendizado crescente de que a simples promoção via Google Ads ou redes sociais não é suficiente para alcançar o público certo.
Quais são as expectativas para os próximos dias?
A maior expectativa agora é transformar essa avalanche de informações em insights práticos para a 8D Hubify e nossos clientes no Brasil. A quantidade de conteúdo e conexões feitas aqui é imensa, e a missão nos próximos dias será processar tudo isso de forma estruturada.
Já temos dois eventos marcados para abril, nos dias 8 e 9, justamente para compartilhar essas tendências e debater como aplicá-las no contexto do mercado brasileiro. Queremos levar esse conhecimento adiante, não apenas como uma síntese do que vimos, mas como um plano de ação contínuo ao longo do ano. O objetivo não é apenas trazer novas ideias, mas entender como podemos aplicá-las de maneira estratégica para gerar impacto real.
Gostaria de deixar uma mensagem para o mercado da criatividade?
O SXSW reforça algo que já está claro para quem trabalha com inovação: criatividade e tecnologia caminham juntas. A inteligência artificial não veio para substituir a criatividade humana, mas para amplificá-la. O profissional do futuro será aquele que souber conectar diferentes conhecimentos e usar a tecnologia como ferramenta para potencializar ideias e resolver problemas de forma inovadora.
Mais do que nunca, precisamos olhar para o futuro com uma mentalidade aberta e adaptável. As mudanças estão acontecendo em uma velocidade impressionante, e os líderes criativos que souberem antecipar e aplicar essas tendências terão um papel essencial na construção desse novo cenário.
( Fabio Duran é professor nas plataformas The CMOs e PiperLovers. Pós-graduado pela Universidade da Califórnia em Administração de Empresas e Gestão de Projetos. Mestre em Administração de Empresas pelo Insper. Mentor e Expert de Marketing Digital nos ecossistemas do Cubo.Itaú e da RD Station, fellow do programa BR +Innovators. )
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