Diário de São Paulo
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Morte

Morre Jean-Claude Bernardet, ícone da crítica e do pensamento cinematográfico brasileiro

Com uma carreira marcada por reflexões sobre a função social do cinema, Bernardet desafiou a estética e a política na arte

Bernardet, professor emérito da USP, foi um dos principais críticos de cinema do Brasil, influenciando gerações de cineastas e estudantes - Foto: Reprodução
Bernardet, professor emérito da USP, foi um dos principais críticos de cinema do Brasil, influenciando gerações de cineastas e estudantes - Foto: Reprodução

Redação Publicado em 13/07/2025, às 09h28


O Brasil perdeu uma grande figura do cinema e da cultura. O cineasta, escritor, professor e crítico de cinema Jean-Claude Bernardet faleceu neste sábado (12), em São Paulo, aos 88 anos. Ele era belga de família francesa, passou a infância em Paris e veio para o Brasil com 13 anos, onde se tornou cidadão brasileiro.

A vida e as escolhas pessoais de Bernardet

Jean-Claude Bernardet lutava contra um câncer de próstata e, há algum tempo, decidiu parar com os tratamentos. Em seu livro "O Corpo Crítico", lançado em 2021, ele fala sobre essa escolha de não fazer mais quimioterapia. Na mesma obra, ele também discute seu diagnóstico soropositivo, que já havia se tornado público nos anos 1990.

Um amigo da família confirmou a morte do cineasta. Ele estava internado no Hospital Samaritano, na capital paulista, e a causa da morte foi um Acidente Vascular Cerebral (AVC).

O velório de Bernardet será neste domingo (13), na Cinemateca Brasileira, das 13h às 17h. A instituição foi um local muito importante na vida do cineasta, onde ele teve diversas funções e contribuiu para seu crescimento e fortalecimento. A Cinemateca destacou em nota sua "capacidade excepcional de análise de forma totalizante, acreditando na interlocução entre a crítica e a produção cinematográfica".

Legado de um pensador do cinema

Professor emérito da Universidade de São Paulo (USP), Bernardet é considerado um dos nomes mais importantes da crítica cultural brasileira. Ele morou por muitos anos no famoso Edifício Copan, no Centro de São Paulo.

Como professor, Bernardet teve um impacto direto na forma como o cinema é produzido e estudado no Brasil. Ele ajudou a fazer com que o cinema fosse visto não apenas como uma arte, mas também como uma ferramenta política e social. Além disso, ele levou a arte para o ambiente acadêmico, político e cultural.

Nas redes sociais, muitos escritores, artistas e intelectuais brasileiros lamentaram a perda do cineasta. A antropóloga e historiadora Lilia Schwarcz, professora da USP e membro da Academia Brasileira de Letras, escreveu que "numa época em que tudo virou superficial e sem espaço, Jean-Claude fez outra escola", e completou: "Morreu o Jean-Claude Bernardet, esse ícone da crítica de cinema, numa época em que existia esse gênero (a crítica) e que ele era levado a sério."

A função social do cinema em sua obra

A obra de Bernardet também abordou a beleza e o papel social do cinema, especialmente em relação à produção nacional-popular e às tensões entre arte e mercado. Para ele, o cinema não era só uma arte, mas um meio de agir na política e na sociedade. Ou seja, o cinema deveria conversar diretamente com a realidade brasileira, mostrando e questionando as estruturas sociais, políticas e econômicas do país, principalmente as contradições da classe média e a falta de um cinema popular verdadeiro.

Bernardet criticava como a miséria era frequentemente usada como tema de beleza em documentários. Em várias entrevistas, como à revista da Fapesp, o cineasta dizia que essa abordagem, quando focada na estética, tirava o lado político da questão social e criava um discurso de consenso que não gerava mudanças de verdade.

Na carreira de Bernardet, destacam-se filmes que ele ajudou a escrever, como:

  • O Caso dos Irmãos Naves (1967)
  • Brasília: Contradições de Uma Cidade Nova (1968)
  • Um Céu de Estrelas (1995)

Ele também foi um dos diretores de:

  • Paulicéia Fantástica (1970)
  • Eterna Esperança (1971)

Além disso, atuou em filmes como Filmefobia (2009), Periscópio (2013), Fome (2015), entre outros. Como pesquisador, ele dirigiu dois ensaios poéticos: São Paulo, Sinfonia e Cacofonia (1994) e Sobre Anos 60 (1999).

Em dezembro de 2023, a Cinemateca Brasileira, que guarda o maior acervo de filmes da América do Sul, fez uma mostra de seis filmes dele, com a seleção feita pelo próprio Bernardet. O legado de Jean-Claude Bernardet permanecerá como um pilar fundamental para o pensamento crítico e a produção cinematográfica no Brasil.


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