Brasil envelhece em ritmo acelerado e desafia sistema de saúde e estrutura social

Estudo revela crescimento das doenças crônicas em idosos alerta para o despreparo do país diante do envelhecimento populacional

População idosa cresce em ritmo recorde no Brasil - Imagem: Rafa Neddermeyer /Agência Brasil

Lívia Gennari Publicado em 08/11/2025, às 16h16

O Brasil passa por uma transformação silenciosa, mas profunda. Um país antes jovem começa a envelhecer em um ritmo que surpreende até os especialistas. Segundo o Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), o número de pessoas com mais de 60 anos deve dobrar em apenas 25 anos, um processo seis vezes mais veloz do que o observado na França.

A virada demográfica deve ocorrer já em 2031, quando a população idosa superará a de crianças e adolescentes. Essa mudança altera não apenas o perfil etário do país, mas também os desafios sociais, econômicos e sanitários. O sistema de saúde, ainda voltado majoritariamente para a população jovem, começa a sentir o impacto de doenças típicas da velhice.

Doenças crônicas

De acordo com o IEPS, o brasileiro vive mais, mas convive com múltiplas doenças crônicas. Hipertensão, diabetes, câncer, AVC e demências são hoje responsáveis por boa parte das internações hospitalares. Essas condições exigem acompanhamento permanente e consomem uma parte crescente dos recursos do Sistema Único de Saúde (SUS).

A responsabilidade pelo cuidado, em muitos casos, recai sobre as famílias, especialmente as mulheres, que acabam deixando o trabalho para cuidar de parentes idosos. O estudo chama atenção para esse impacto social pouco discutido: o envelhecimento também tem gênero.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que distúrbios como AVC, Alzheimer e neuropatias respondam por quase metade da carga global de incapacidade. No Brasil, o AVC voltou a ser a principal causa de morte cardiovascular desde 2019, consequência direta do envelhecimento populacional e do controle precário da pressão e do diabetes.

Câncer avança e expõe novo retrato da saúde brasileira

Um levantamento do Observatório de Oncologia mostra que o câncer já é a principal causa de morte em 670 municípios brasileiros, o equivalente a 12% das cidades do país. Desde 1998, o número de óbitos por tumores aumentou 120%, mais que o dobro do crescimento das mortes por doenças do coração.

Se o ritmo continuar, o câncer deve se tornar a principal causa de morte no Brasil até 2029. O dado confirma uma tendência: quanto mais a população envelhece, mais se ampliam os diagnósticos de doenças crônicas e degenerativas.

Falta estrutura para envelhecer com dignidade

Enquanto o envelhecimento avança, a infraestrutura para acolher essa nova realidade ainda é insuficiente. Faltam geriatras, serviços de reabilitação e instituições de longa permanência. Apenas 36% dos municípios brasileiros têm algum tipo de abrigo ou casa de apoio, a maioria privada e inacessível para quem depende do SUS.

O resultado é um país que envelhece depressa, mas sem preparo. Geralmente, as famílias assumem sozinhas a rotina de cuidado, e o sistema público se vê pressionado por uma demanda crescente.

O envelhecimento, tema da redação do Enem 2025, deixou de ser uma projeção futura: é o retrato do presente. E o grande desafio do Brasil, agora, é garantir que essa nova etapa da vida venha acompanhada de saúde, autonomia e dignidade.

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