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Trump vira a política brasileira de pernas para o ar

A declaração de Trump sobre Bolsonaro provoca reações e levanta questões sobre a estratégia americana em relação ao Brasil

A declaração de Trump sobre Bolsonaro provoca reações e levanta questões sobre a estratégia americana em relação ao Brasil - Imagem: Reprodução | X (Twitter) - @AFPnews

Reinaldo Polito Publicado em 13/07/2025, às 08h56 - Atualizado às 14h56

Estou atordoado. A ameaça de Trump de aplicar uma tarifa de 50% sobre qualquer produto ou serviço exportado do Brasil para os Estados Unidos dividiu a opinião pública.

Na verdade, nada mudou. Cada um continua rezando a mesma cartilha das suas narrativas. Quem é de esquerda jura de pés juntos que a oposição deu um tiro no pé. Quem é conservador comemora o puxão de orelhas dado pelo chefe do Executivo americano.

Alegam os governistas que, se Trump levar à frente suas intenções de impor a taxa de 50%, provocará um sério problema na economia do Brasil. E garantem que essa conta será colocada no colo do ex-presidente Bolsonaro. Afinal, dizem, foi seu filho Eduardo quem fez campanha junto ao presidente dos Estados Unidos para que tomasse essa decisão.

Ações de Trump são inéditas

Por outro lado, os opositores têm opiniões distintas. Dizem que Bolsonaro e seus seguidores estão sendo perseguidos há muito tempo. Como afirmou o próprio Trump em sua mensagem, publicada no Truth Social: “Eu tenho assistido, assim como o mundo, como eles não fizeram nada além de ir atrás dele, dia após dia, noite após noite, mês após mês, ano após ano!”

Essas palavras reforçaram o discurso dos oposicionistas. Afinal, quando foi que um presidente com o peso de Trump se manifestou diretamente a um chefe de Nação? Ainda que não tenha mencionado o nome diretamente. Não há na história recente nenhum registro.

Deve estar tudo planejado

Será que já dá para os bolsonaristas saírem com faixas e apitos de comemoração? Os oposicionistas não podem se esquecer de que o ex-presidente está inelegível e a um passo para ser condenado. Para quem estava perdido, entretanto, sem chances de virada de mesa, até que esse é  um fato para lá de animador.

Quem tem razão? Tirando os discursos passionais, ninguém pode prever, com segurança, o que virá pela frente. Trump não entraria nessa batalha só para fazer gracinha. Com certeza, possui uma estratégia prevendo todos os passos do governo e da diplomacia brasileira. Quem duvida de que esse é um plano que vem amadurecendo há tempos?

Ajeitada no topete

O primeiro mandatário americano não deve ter levantado um dia qualquer, mirado o espelho, ajeitado o topete e decidido: hoje vou azucrinar a vida do Lula e do seu Judiciário. Também não deve ter recebido algumas informações de Eduardo Bolsonaro, lido as acusações, batido na mesa do Salão Oval para então rugir: a história não pode continuar assim. O governo brasileiro me paga.

No cenário brasileiro, Lula, acostumado a fazer bravatas palanqueiras, diz o que lhe dá na telha. Recebe uma ou outra crítica pelos seus desatinos, mas, no fim, fica o dito pelo não dito.

Os xingamentos escaparam do palanque

Não imaginou que, xingando Trump com os mais agressivos adjetivos, suas palavras ganhariam repercussão além-fronteira. Pois é, atravessaram o Atlântico e chegaram aos ouvidos do “laranjão”. Por mais experiente e pragmático que seja Trump, já que, mais do que ninguém, sabe que não existe amizade entre os países, mas sim conveniências, não é de levar desaforo para casa. Ainda mais com o poder que tem em mãos.

Esperou a hora certa para agir. Durante a reunião dos BRICS no Brasil, um dos assuntos que pairava no ar foi a possibilidade de os países se afastarem do dólar como moeda padrão nas negociações internacionais. Um plano desses, se concretizado, arrebentaria com os Estados Unidos. Por isso, antes que criassem asinhas, vociferou: quem defender ideias que sejam contra os Estados Unidos será penalizado com aumento de tarifas.

Montou um pacote robusto

Juntou tudo num pacote e colocou nas mensagens todos os espinhos que estavam arranhando sua garganta: a perseguição a Bolsonaro, as conversas enviesadas dos BRICS e a aproximação indesejável do Brasil com a China e a Rússia. Dessa forma, defende um aliado político de primeira hora, o ex-presidente brasileiro; impede a continuidade das conversas sobre o dólar; e avisa que está de olho na aproximação com os países adversários econômicos.

Quem disser que sabe ao certo o desfecho desse imbróglio provavelmente está apenas tentando reforçar sua própria crença. Dizer que a situação de Bolsonaro ficará ainda pior com a defesa que recebeu é agir com o fígado ou repetir narrativas da imprensa militante. Por outro lado, afirmar que ele escapará de todas as acusações por conta da intervenção de seu parceiro americano também pode ser apenas projeção de esperanças otimistas.

Pelo jeito, não teremos de esperar muito tempo para saber a resposta. Se continuar como nas últimas semanas, poderemos ser surpreendidos com uma nova carta de Trump. Seria possível dizer também que outras incursões podem ser aguardadas. Ou seja, nem o “imprevisto” será surpresa. Siga pelo Instagram: @polito

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